A morte dos pais deixa lacunas que permanecem na memória, mas também pode alterar a forma como lembramos de quem fez parte da nossa trajetória. É o que afirma o psicanalista e escritor argentino Gabriel Rolón, segundo quem o passar do tempo tende a suavizar os defeitos de quem já partiu e a transformar episódios da infância em recordações mais agradáveis.

Para o especialista, o desafio está em reconhecer o valor dessas experiências sem deixar que a saudade impeça a vida no presente.

Por que os pais são idealizados após a morte?

Segundo Rolón, a memória funciona como um espaço onde buscamos preservar aquilo que perdemos. As lembranças, porém, não permanecem intactas: com o tempo, é possível reconstruí-las de modo mais afetuoso e deixar conflitos, decepções e dificuldades em segundo plano.

O psicanalista descreve o processo como uma espécie de edição emocional. Assim, os pais falecidos podem parecer mais nobres, sensíveis ou generosos do que realmente eram, enquanto a infância ganha contornos mais felizes. Isso não significa que os bons momentos tenham sido falsos, mas que a distância modifica a interpretação que fazemos deles.

Como a memória se transforma com o tempo

A análise de Rolón mostra como as emoções interferem na reconstrução da história pessoal. Algumas recordações se tornam especialmente valiosas porque representam vínculos, vivências e fases da vida que não podem ser repetidas.

Entre as principais mudanças desse processo estão a idealização dos pais, já que a ausência dá mais espaço ao carinho do que aos defeitos; o embelezamento da infância, com destaque para os momentos felizes; a preservação dos vínculos, já que recordar quem partiu mantém uma ligação simbólica com essas pessoas; e a nova leitura das experiências, já que o amadurecimento permite compreender de outra forma situações que antes causavam sofrimento.

Quando a saudade vira obstáculo

Lembrar de quem se ama não é o problema. A dificuldade surge quando nos apegamos a uma versão idealizada do passado e passamos a buscar nele uma felicidade que já não pode ser vivida da mesma maneira.

Rolón ressalta que valorizar os momentos bons é legítimo, mas isso não deve prender ninguém emocionalmente. As vivências passadas integram a identidade, embora não possam substituir as oportunidades de construir bem-estar no presente.

O que fazer para valorizar o presente

Para o psicanalista, a felicidade não deve ficar restrita a uma fase que terminou nem se transformar em uma promessa constantemente adiada. Esperar que tudo seja perfeito no futuro ou desejar voltar sempre a outros tempos afasta aquilo que ainda pode ser vivido.

A reflexão convida a reconhecer o passado sem negar suas feridas e a guardar as lembranças sem transformá-las no único refúgio emocional. Vínculos e experiências ajudam a formar quem somos, mas não determinam tudo o que podemos fazer com a própria vida.

Seguir em frente sem apagar o passado

A proposta de Rolón não é esquecer os pais nem apagar as experiências da infância. Trata-se de aceitar que as pessoas mudam, que as ausências doem e que a memória pode alterar a percepção de quem amamos.

A mensagem central é que o passado merece um lugar na nossa história, mas não deve ocupar todo o espaço da vida. Honrar quem partiu também pode significar seguir construindo projetos, cultivando relacionamentos e vivendo momentos felizes no presente.