Depois de ser exibido no Festival do Rio, o documentário A Extraordinária Vida de Vera Valdez, dirigido por Fabio Meira, chega à Mostra de Cinema de São Paulo com um retrato íntimo de uma das pioneiras da moda brasileira e símbolo de transgressão feminina no país. A partir dos relatos da própria personalidade carioca, o filme reconstrói a trajetória da atriz e modelo Vera Valdez (1936-2026), das passarelas internacionais ao cinema e ao Teatro Oficina, além de resgatar os episódios que marcaram sua vida pessoal e as pessoas que fizeram parte de sua história.

Das passarelas europeias à Maison Chanel

Vera estreou nas passarelas de Elsa Schiaparelli em 1952 e, dois anos depois, passou a trabalhar com Coco Chanel, tornando-se próxima da estilista e uma de suas modelos favoritas. A carreira também incluiu colaborações com Christian Dior, Jacques Fath e outros grandes nomes da alta-costura.

O documentário não se limita, porém, à trajetória profissional. A obra apresenta a mulher por trás da estrela que desfilou pelas principais passarelas da Europa, abordando a juventude rebelde, a relação com as filhas e as idas e vindas da Maison Chanel, com sucessivas admissões e demissões ao longo do caminho.

Ditadura, retorno ao Brasil e grandes amizades

A narrativa também atravessa os períodos mais difíceis de sua vida, como a prisão e a tortura durante a ditadura militar, e o retorno ao Brasil nos anos 1980, quando passou a dividir sua rotina entre o país e a Europa. Ao longo do filme, surgem figuras centrais de sua história, como Leila Diniz, amiga e sócia, e José Celso Martinez Corrêa, fundador do Teatro Oficina e nome fundamental de sua passagem pelos palcos.

Peça-chave na história do Teatro Oficina, Vera tem sua trajetória artística resgatada por meio de depoimentos e de trechos de Vozes Humanas, monólogo protagonizado por ela aos 88 anos, dois anos antes de sua morte. Integrante da trupe por cerca de quatro décadas, a atriz interpreta uma mulher que conversa ao telefone com o amante de longa data, prestes a se casar com outra no dia seguinte. Desesperada com a separação, a personagem expõe a fragilidade de uma relação que chega ao fim. As cenas da peça ajudam a compor o retrato de Vera para além dos relatos sobre o passado, mostrando-a em atuação já na fase final da vida.

Reflexão sobre a morte encerra o filme

Ao reunir memórias, episódios históricos e registros de sua atuação, o documentário oferece um olhar próximo sobre uma mulher que circulou por diferentes universos culturais, sem se limitar a nenhum deles. Próximo ao fim, Vera fala sobre a própria morte e afirma acreditar que ela não irá surpreendê-la, embora reconheça que nunca se sabe ao certo como será essa experiência, justamente por ser algo que ainda não foi vivido.

A reflexão encerra o documentário sem grandes respostas, como uma última conversa de Vera com aquilo que, apesar de toda a experiência acumulada ao longo de seus 90 anos, permanece desconhecido. A produção chega aos cinemas do Brasil em 2027, ainda sem data definida.