O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o risco de uma derrota que pode marcar o fim de sua trajetória política e aproximar o Brasil da onda de direita que avançou pela América Latina nos últimos anos. A avaliação está em coluna publicada nesta quarta-feira (21) pela revista americana New Yorker, assinada pelo jornalista Ishaan Tharoor.

Segundo o texto, as chances no segundo turno das eleições de 2026 favorecem Flávio Bolsonaro (PL), descrito como um político da direita radical. O colunista cita como indícios o resultado considerado “surpreendente” do primeiro turno, em que Flávio apareceu à frente de Lula, e o histórico eleitoral brasileiro: desde 1989, todo candidato que venceu o primeiro turno terminou eleito presidente.

“Lula espera que milhões de brasileiros descontentes, que não votaram no primeiro turno, ainda compareçam às urnas para votar nele”, escreve Tharoor, que lembra, porém, as amplas vitórias da direita no Congresso e nos governos estaduais.

Para o colunista, mesmo que Lula conquiste uma vitória apertada, seu próximo mandato seria fortemente limitado por uma estrutura federal dominada pela oposição. Com Flávio como favorito, o Brasil estaria “prestes a se tornar o nome mais importante em uma longa lista de países latino-americanos que se voltaram para a direita nos últimos dois anos” — movimento que, segundo o texto, converge com a visão ideológica do governo do presidente americano Donald Trump para o hemisfério.

A coluna tem como título “A última dança de Lula” (em tradução livre), referência a um trecho da música “Under Pressure”, de David Bowie e Queen, usada em vídeos de apoiadores do petista.

Legado e trajetória

O texto enumera conquistas dos dois primeiros mandatos de Lula, como a redução do desmatamento na Amazônia, a liderança do Brasil nas pautas climáticas e uma política externa que projetou o país como referência do chamado Sul Global. Também menciona os “vultuosos gastos sociais”, viabilizados pelo ciclo de alta das commodities, que retiraram “dezenas de milhões de pessoas” da pobreza.

A coluna aborda ainda a derrocada política do petista após o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e a Operação Lava Jato, que o levou à prisão por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019. Mesmo vencendo Jair Bolsonaro (PL) em 2022, Lula não conseguiu atrair eleitores afetados pelo alto custo de vida, preocupados com segurança e Justiça e pessimistas quanto ao futuro do país.

Sobre o governo Jair Bolsonaro, o texto descreve o ex-presidente como um ex-militar que “via com bons olhos o período da ditadura militar”, que enfraqueceu proteções ambientais, cortou verbas de universidades e programas habitacionais e conduziu de forma desastrosa o enfrentamento da pandemia. Tharoor recorda ainda os atos de 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores de Bolsonaro vandalizaram o STF, o Congresso e o Palácio Presidencial, e cita que a Justiça concluiu que o ex-presidente participou de uma trama golpista — hoje ele cumpre pena de 27 anos em prisão domiciliar.

Flávio Bolsonaro é caracterizado como “uma versão mais moderada do pai”, mas com planos declarados de promover a soltura de Jair e punir ministros do STF envolvidos na condenação.

Paralelo com os EUA

O colunista afirma que Brasil e Estados Unidos caminham em paralelo num “estranho labirinto de espelhos”, comparando os ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília à invasão do Capitólio, em Washington, em 6 de janeiro de 2021 — episódios que ilustram, segundo o texto, os desafios vividos pelas duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental.