Pesquisa mostra avanço dos extremos

Sondagem do instituto Odoxa divulgada nesta quarta-feira, 14, aponta que a extrema-direita e a extrema-esquerda da França ganham espaço na corrida presidencial, marcada para abril e maio do ano que vem, em meio à onda de protestos estudantis e sindicais contra o governo centrista de Emmanuel Macron. Marine Le Pen lidera o primeiro turno com 37% ou 38% das intenções de voto, a depender do cenário testado.

Jean-Luc Mélenchon, rival da esquerda radical, aparece em segundo, com 18% ou 18,5%, conforme o nome de centro incluído na simulação — Édouard Philippe ou Gabriel Attal, ambos ex-primeiros-ministros de Macron. A projeção dá 17% dos votos a Philippe e apenas 11% a Attal.

Macron não pode disputar a reeleição. Em um eventual segundo turno, Le Pen venceria com folha contra Mélenchon e também derrotaria Philippe, embora por margem mais estreita. Mélenchon concorreu à presidência em 2012, 2017 e 2022, sem nunca chegar à etapa final. Le Pen disputou as mesmas eleições, avançou ao segundo turno em 2017 e 2022 e foi batida nas duas ocasiões por Macron.

Protestos e crise nas escolas

Iniciados no fim de setembro, os protestos começaram em escolas de ensino médio nos arredores de Paris, alcançaram as universidades e passaram a reunir estudantes, docentes e sindicatos em diversas regiões do país. As reivindicações envolvem a falta de professores e os problemas estruturais da rede pública.

Dados do Ministério da Educação indicam que quase 10% das horas de aula no ensino médio público francês ocorrem sem professores. A escassez tem levado famílias de maior poder aquisitivo a transferir os filhos para instituições privadas, tendência que pode aprofundar a desigualdade de acesso ao ensino.

O impasse se agrava enquanto o governo prepara um ajuste fiscal para conter o endividamento do país. Com despesas elevadas e pouca margem para ampliar os investimentos públicos, o Executivo busca atender às demandas dos estudantes sem abandonar o esforço de equilibrar o orçamento.

Macron considera as reivindicações dos estudantes “legítimas”, mas avalia que eles estão sendo “instrumentalizados” por forças políticas, informou nesta quarta-feira a porta-voz do governo, Maud Bregeon, a jornalistas. O presidente pediu ao Executivo “respostas concretas” nas próximas semanas.

Balanço dos confrontos

O Ministério do Interior contabilizou 161.500 participantes nas manifestações de terça-feira em Paris e outras cidades; os sindicatos elevam o número a 480.000. Centenas de escolas fecharam e dezenas foram vandalizadas. Servidores públicos se mobilizam contra propostas de congelamento salarial. Com pautas distintas, os movimentos convergem na resistência à queda na qualidade dos serviços e às restrições orçamentárias.

Mélenchon, candidato do partido A França Insubmissa (LFI), participou de um ato em Paris. O Reagrupamento Nacional (RN), legenda de Le Pen, expressou apoio aos policiais e responsabilizou os estudantes pelos episódios de violência.

O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, afirmou nesta quarta-feira que 248 estudantes ficaram feridos, na maioria em episódios de “violência urbana”, além de 937 policiais e 149 membros do corpo docente. O balanço foi apresentado em sessão de perguntas no Parlamento. Segundo o Ministério da Justiça, cerca de 8.000 pessoas foram detidas desde o início dos protestos, no fim de setembro.