Um estudo brasileiro que analisou dados de 1.814 municípios, cobrindo mais de 78% da população do país, identificou que cada elevação de 5°C na temperatura média diária está associada a um crescimento de 22% no risco de hospitalização por infecção gastrointestinal nos nove dias seguintes. Bebês com menos de 1 ano apareceram como o grupo mais vulnerável.

Os achados foram divulgados a médicos durante o Congresso Brasileiro de Pediatria, realizado em Belo Horizonte no início de outubro. A análise ganha relevância com o alerta mais recente da ONU, que aponta tendência de intensificação do fenômeno El Niño nos próximos meses.

Segundo a gastropediatra Cristina Targa Ferreira, uma das responsáveis pela pesquisa, o El Niño se relaciona com a saúde digestiva por meio da temperatura, das chuvas e enchentes, da qualidade da água, da segurança dos alimentos e das doenças infecciosas entéricas.

Como o clima afeta o intestino

Na prática, o aumento das temperaturas facilita a exposição a doenças. Em períodos de seca, a menor disponibilidade de água pode comprometer práticas de higiene e favorecer o armazenamento inadequado do líquido. Já chuvas intensas e enchentes podem sobrecarregar os sistemas de saneamento e elevar o risco de contaminação da água e dos alimentos por microrganismos.

Os impactos variam conforme a intensidade do evento climático, a época do ano e outros fatores. No Norte e no Nordeste, seca, calor intenso e baixa umidade podem pressionar os recursos hídricos. No Sul, chuvas fortes e enchentes podem comprometer o abastecimento e a qualidade da água. Populações rurais e comunidades com acesso limitado a água potável, saneamento e serviços de saúde tendem a sofrer consequências maiores.

Prevenção e sinais de alerta

O levantamento também destaca a relação entre condições ambientais e a microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que participa da digestão, da resposta imunológica e do equilíbrio do organismo. Para os pesquisadores, os dados reforçam a importância de uma abordagem preventiva.

“A abordagem preventiva diante dos eventos climáticos deve olhar para a saúde do tubo digestivo como um todo. Isso envolve desde a higiene e a segurança dos alimentos até o cuidado contínuo com a imunidade e a integridade da microbiota”, avalia Ferreira, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

Entre as medidas de prevenção estão cuidados com a hidratação, a higiene das mãos, a segurança dos alimentos e a qualidade da água — ações que reduzem a exposição a fatores de risco, sobretudo em períodos de calor intenso, seca ou enchentes.

Em crianças pequenas, sinais como redução da urina, boca seca, ausência de lágrimas ao chorar, sonolência ou prostração podem indicar desidratação e exigem avaliação médica. Quadros de diarreia intensa, especialmente quando acompanhados de febre, sangue nas fezes, vômitos persistentes ou sinais de desidratação, também demandam atenção profissional.

O material foi elaborado a partir de revisão de evidências científicas, estudos publicados, dados de órgãos oficiais e contribuições de especialistas em saúde e meteorologia, com patrocínio da farmacêutica Opella.