Lula e Flávio Bolsonaro montaram uma encenação política marcada por pedidos recíprocos e uma série de condições para a divulgação pública de suas contas privadas, incluindo as de familiares e assessores. O movimento dominou o fim da campanha presidencial e transformou a suspeita de corrupção em tema central do embate eleitoral.
Origem do confronto
A proposta partiu de Lula, que lançou o desafio ao adversário durante o único debate do qual ambos participaram, transmitido pela Rede Bandeirantes. Há ainda outro debate agendado para a noite desta quinta-feira na Rede Globo.
Na terça-feira (20/10), o petista levou a proposta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), formalizando o pedido de abertura dos sigilos. Flávio Bolsonaro respondeu com uma lista de exigências próprias. Lula então rebateu nas redes sociais: “Desafio aceito, Flávio Bolsonaro. Amanhã (quinta-feira, 22/10) às 11h esperamos você no TSE para abertura total do sigilo”.
Foi assim que os dois atravessaram a reta final da disputa presidencial envolvidos nessa espécie de competição em que cada candidato tenta provar, diante do público, que o outro não tem como se defender das suspeitas de corrupção.
Transparência como obrigação
A situação é considerada esdrúxula por um motivo evidente: presidente e senador da República são servidores públicos e deveriam divulgar suas contas privadas, bem como as de familiares e assessores, mantendo os registros permanentemente atualizados.
A transparência no setor público é uma obrigação constitucional, como reforçou o vice-presidente e candidato à reeleição Geraldo Alckmin: “Acho até que quem é eleito presidente, vice-presidente, não deveria ter sigilo nem fiscal, nem bancário, nem telefônico. Vida pública é vida pública, tem que ser transparente.”
Há algo de muito estranho quando candidatos à Presidência da República convertem um duelo retórico sobre corrupção em passatempo de campanha eleitoral. Tudo indica que Lula e Flávio Bolsonaro não cumpriram — nem demonstram disposição de cumprir — o dever constitucional de publicidade sobre o que, como, quando e por que fazem em seus mandatos, com o uso do dinheiro público e, principalmente, em seus negócios privados. Cada um aponta para o outro apenas para justificar os próprios segredos.
Efeito sobre os eleitores
A desconfiança em relação aos dois nomes vem permeando, há meses, as manifestações dos eleitores registradas nas pesquisas de intenção de voto. A mais recente sondagem da Quaest, encomendada pelo grupo Globo, revela um dado que contrariou as expectativas: o número de indecisos entre os eleitores que se declaram independentes cresceu de 13% para 31% em apenas uma semana — justamente a última do calendário eleitoral.
O salto dos indecisos na reta final mostra que a troca de acusações entre os candidatos pode estar gerando mais dúvida do que convencimento no eleitorado, em um cenário no qual nenhum dos dois lados conseguiu até agora se livrar do rótulo da desconfiança.
