Por quase dois séculos, a imprensa foi quem organizou o palco do debate público. Eram os veículos de imprensa que definiam quais temas entravam na pauta, quais vozes ganhavam espaço e em que ordem as questões chegavam ao leitor. Esse filtro editorial, com todas as suas limitações, funcionava como uma curadoria humana do que merecia atenção.
Esse modelo mudou. Hoje, quem decide o que circula não é um editor, mas um algoritmo. A escolha do que cada pessoa vê nas plataformas digitais é feita por sistemas automatizados, orientados a maximizar a interação. E, nesse critério, o bizarro costuma ter vantagem.
Do editor ao algoritmo
A tese que estrutura a discussão sobre as eleições de 2026 é direta: quem decide o que você vê decide parte do seu voto. Quando a curadoria da informação era feita por veículos jornalísticos, o eleitor recebia um conjunto de temas previamente selecionados por profissionais. Com a curadoria algorítmica, essa seleção passou a ser feita por sistemas que medem reações, e não a relevância pública de um fato.
A consequência apontada é que o critério de visibilidade mudou de natureza. Não é mais a importância do fato que determina sua distribuição, mas a capacidade de gerar interação. Conteúdos que provocam espanto, indignação ou estranhamento tendem a circular mais rápido do que o material que exige apuração e contexto.
O bizarro em vantagem
Na lógica da viralização, o incomum rende mais que o ordinário. O que destoa, exagera ou simplifica encontra terreno fértil, enquanto o conteúdo que exige verificação compete em desvantagem. O resultado é um palco de debate em que o sensacionalista costuma superar o informativo.
Para o processo eleitoral, o efeito é duplo. De um lado, candidatos e campanhas passam a disputar atenção em um ambiente em que o ruído pode valer mais que a proposta. De outro, o eleitor forma sua percepção da realidade a partir de um recorte que não escolheu, mas que lhe foi entregue por um sistema otimizado para reter sua atenção.
O que está em jogo em 2026
A pergunta que se coloca para as eleições de 2026 não é apenas quem vencerá a disputa, mas quem — ou o quê — mediará o confronto de ideias. Se por quase duzentos anos essa mediação coube à imprensa, hoje ela está nas mãos de mecanismos de recomendação cujos critérios não passam por uma redação.
A conclusão do argumento é que a agenda eleitoral deixou de ser montada apenas por editores e passou a ser moldada também pela engenharia de engajamento. Nesse cenário, reconhecer que o algoritmo ocupa o lugar antes reservado ao curador jornalístico é condição para discutir os contornos do próximo pleito.
