A eleição presidencial chegou à reta final com pouca discussão concreta sobre os problemas que afligem o país. A polarização, antes um sintoma da crise política, virou a principal arma eleitoral do PT e do PL. Lula e Flávio Bolsonaro, ambos com chances de vitória no domingo 25, privilegiam anúncios rasos, ataques pessoais e discursos destinados a inflamar as próprias bases, em embates que têm mais de briga ideológica do que de propostas para a nação.
Os efeitos dessa estratégia aparecem em pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, que retrata um eleitorado posicionado em trincheiras: o eleitor se alinha automaticamente ao seu candidato nos temas centrais, independentemente de existir proposta ou trabalho relevante sobre o assunto.
Democracia em xeque
Um dos exemplos mais emblemáticos está na avaliação sobre quem está mais preparado para defender o regime democrático. Embora haja amplas evidências ligando o bolsonarismo à tentativa de golpe de Estado tramada entre o fim de 2022 e o início de 2023 — episódio que culminou na condenação e na prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro —, 49% do eleitorado apontam Flávio Bolsonaro (PL) como o mais apto a proteger a democracia. Lula, que voltou ao Planalto em 2022 com um discurso forte em defesa do sistema, aparece 2 pontos atrás do rival.
A dianteira de Flávio se sustenta na narrativa de que a direita e seu pai são perseguidos por um Judiciário alinhado a Lula, formado por magistrados apresentados como “ditadores de toga”. O discurso sensibiliza o eleitorado de direita, que enxerga no senador alguém capaz de recompor a democracia.
Segurança como contrassenso
A lógica ideológica também aparece em temas em que um dos candidatos parte em desvantagem. No enfrentamento à criminalidade, principal preocupação dos brasileiros, 43% consideram Lula o mais preparado — um contrassenso diante das históricas dificuldades da esquerda no tema e da avaliação ruim do atual governo na área. Em guinada recente de posição, o petista passou a apoiar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, bandeira histórica da direita, na tentativa de conter eventuais perdas contra um rival que fez da segurança seu tema central e conta com aliados que pregam exatamente isso.
Mesmo assim, Flávio convence pouco mais da metade do eleitorado: 53% o veem como mais preparado que o adversário no combate ao crime.
Ambiente e política externa
Em meio ambiente, há empate numérico: 47% a 47%, apesar das posições diametralmente opostas dos candidatos. Lula transformou o tema em bandeira, fortaleceu agências ambientais e trouxe a COP30 para o Brasil. Flávio dá pouca ênfase ao assunto na campanha, votou a favor de flexibilizar exigências ambientais e promete reorganizar as competências de órgãos como Ibama e ICMBio — ideias que, embora bem-vindas quanto à simplificação de processos, serviram de munição à campanha adversária para rotular o bolsonarismo como inimigo do meio ambiente.
Na política externa, o alinhamento aos Estados Unidos e a proximidade do clã Bolsonaro com Donald Trump são bandeiras de Flávio — não por acaso, a bandeira americana é exibida com frequência em manifestações bolsonaristas. Lula, por sua vez, alertou para o risco de intromissão de Trump no processo eleitoral para eleger seu aliado e aposta no discurso de soberania nacional e na aproximação com a China, hoje o maior parceiro comercial do Brasil. O placar segue apertado: 47% consideram Lula o melhor para conduzir a política externa, enquanto 49% apontam Flávio.
“Mais do que eleitores, hoje temos duas torcidas movidas por paixões”, resume Luiz Alberto de Farias, professor titular de opinião pública da USP.