São Paulo nunca elegeu, desde a retomada das eleições diretas em 1982, um governador filiado a um partido tradicionalmente identificado com a esquerda. Ao longo de mais de quatro décadas, o Palácio dos Bandeirantes foi ocupado exclusivamente por nomes do PMDB, do PSDB e, mais recentemente, do Republicanos.

Do MDB ao PMDB

O período que antecedeu a ascensão dos tucanos foi dominado pelo PMDB, herdeiro do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), fundado em 1966 como oposição ao regime militar dentro do sistema bipartidário da época, quando convivia com a Arena, legenda de sustentação ao governo, conforme registro do Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Sob a ditadura, a escolha de governadores passou a ser indireta: o AI-3, editado em 1966, determinou que os ocupantes do cargo fossem definidos pelas assembleias legislativas. Em São Paulo, Roberto de Abreu Sodré foi eleito por esse método no mesmo ano.

A disputa direta retornou em 1982, com a vitória de Franco Montoro, primeiro governador paulista eleito pelo voto popular após o regime militar. Ele governou de 1983 a 1987 e foi sucedido por Orestes Quércia, eleito em 1986, e por Luiz Antônio Fleury Filho, vencedor em 1990 — os três pelo PMDB.

Em 1988, Montoro esteve entre os fundadores do PSDB, ao lado de lideranças como Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra. A nova sigla nasceu nos dias 24 e 25 de junho, durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, com forte presença de ex-integrantes do PMDB. A origem do partido em São Paulo, portanto, está ligada a uma dissidência da agremiação que governava o estado na redemocratização.

Sequência histórica dos tucanos

Em 1994, Mário Covas venceu a corrida pelo Palácio dos Bandeirantes pelo recém-criado PSDB e iniciou um ciclo de sete conquistas consecutivas, que se estendeu até a eleição de João Doria, em 2018. A série foi encerrada em 2022, com a vitória de Tarcísio de Freitas, do Republicanos.

O fenômeno foi estudado pelo cientista político Henrique Curi, professor da FESP-SP, na dissertação de mestrado “Ninho dos Tucanos: o PSDB em São Paulo (1994-2018)”, defendida na Unicamp e depois publicada na revista “Opinião Pública”. O trabalho mostra que o estado registrou, no período analisado, a maior sequência de vitórias seguidas de uma mesma legenda para o governo estadual no Brasil.

Segundo Curi, a longevidade tucana, que durou quase 30 anos, não se explica apenas pelo perfil do eleitorado paulista. A estrutura partidária nos municípios e a capacidade de formar e manter lideranças também pesaram no resultado.

Máquina organizada

Uma interpretação recorrente atribui o domínio tucano a um eleitorado de centro-direita, com forte presença da classe média e identificação com o PSDB. Para o pesquisador, porém, essa leitura é insuficiente: a explicação mais consistente estaria na via organizacional e institucional do partido.

Entre os fatores decisivos, Curi destaca a atuação da Executiva estadual, que acompanhava os diretórios nas 645 cidades paulistas e mantinha coordenadores regionais nas 63 regiões de governo do estado. Enquanto outras legendas recorriam a comissões provisórias, o PSDB apostou na interiorização por meio de diretórios municipais.

O partido também operava um sistema interno, conhecido como “intranet tucana”, para monitorar o desempenho das estruturas municipais. A ferramenta permitia identificar demandas locais, recrutar lideranças e avaliar resultados eleitorais, com métricas que definiam premiações e punições aos diretórios — do maior suporte durante o mandato ao apoio nas campanhas seguintes.