O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente da República, afirmou que acredita em uma solução de conciliação para a crise política do país: uma anistia geral que libertaria todos os presos condenados por participação na tentativa de golpe de Estado, em troca da renúncia do Senado a qualquer processo de impeachment contra ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
— Eu acho que nós vamos conceder uma anistia, vai todo mundo anistiado. Solta todo mundo, está todo mundo livre e segue o baile. É óbvio que isso vai pegar muito mal, vai gerar uma certa revolta na população que elegeu gente aí para botar essa turma [ministros do STF] para fora — declarou Mourão, em entrevista à coluna Painel, da Folha.
Prática recorrente na história brasileira
Para o senador, esse tipo de acordo faz parte da tradição política nacional. Ele comparou a eventual medida, guardadas as devidas proporções, à anistia de 1979, que libertou presos políticos e, ao mesmo tempo, garantiu impunidade a militares que cometeram crimes durante a ditadura.
— Isso é muito comum na nossa história, né, é só analisar. A gente sempre procura uma saída para que ninguém mate ninguém — afirmou Mourão.
O senador é general de quatro estrelas da reserva do Exército e ocupou a vice-presidência entre 2019 e 2022, na chapa encabeçada por Jair Bolsonaro.
Ressona com tese de Pazuello
O cenário apontado por Mourão é o mesmo defendido pelo deputado federal reeleito Eduardo Pazuello (PL-RJ), que também concedeu entrevista à Folha. Ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro, Pazuello é general da reserva de três estrelas, um degrau abaixo do ex-vice-presidente na hierarquia militar.
Apesar de defender a tese da anistia como desfecho provável da crise, Mourão deixou claro que não pretende apresentar um projeto de lei nesse sentido no Senado e afirmou que não apoiaria uma proposição desse tipo.
A declaração do senador ocorre em um momento de forte tensão institucional, após o julgamento e a condenação de Bolsonaro pela trama golpista que visou abolir o Estado democrático de direito e impedir a posse do vencedor das eleições de 2022. O episódio culminou na prisão do ex-presidente e alimentou o debate sobre eventuais medidas de conciliação no Congresso.
Entre os temas mais sensíveis do momento estão os desdobramentos dos ataques de 8 de janeiro e a pressão de setores da base eleita por uma agenda de confronto com o Supremo. A aposta de Mourão em um pacto de anistia e trégua institucional reflete a busca, no Congresso, por uma saída negociada que evite um aprofundamento do embate entre os poderes.
