Quando um alto funcionário do governo dos Estados Unidos redige um documento, faz uma declaração em sites oficiais, publica uma mensagem em suas redes sociais ou se apresenta perante o Congresso, um padrão costuma se repetir: Cuba aparece retratada como uma ameaça aos interesses americanos e à segurança do hemisfério.
O problema central dessa construção, apontam observadores do tema, é que a chamada ameaça cubana nunca se materializou de forma concreta. A ilha caribenha, com recursos limitados e economia fragilizada, é apresentada em discursos oficiais como um perigo desproporcional à sua capacidade real de causar dano aos Estados Unidos.
Uma retórica que atravessa décadas
A caracterização de Cuba como adversário não é novidade no discurso político americano. Desde os primeiros anos do conflito entre os dois países, a ilha foi alvo de sanções, isolamento diplomático e campanhas de desgaste conduzidas por sucessivos governos em Washington. O que muda ao longo do tempo é o rótulo: comunismo, alinhamento com potências rivais, patrocínio de regimes considerados problemáticos ou apoio a governos não alinhados aos interesses americanos.
O resultado, no entanto, permanece o mesmo. Independentemente do contexto internacional, a narrativa da intimidação é reacendida sempre que conveniente, mantendo Cuba como um inimigo útil no tabuleiro político.
A quem beneficia o discurso
A pergunta que sustenta o debate é simples: se a ameaça nunca existiu de fato, a quem serve sua constante evocação?
Para analistas da relação entre os dois países, a resposta envolve múltiplos atores. No plano interno americano, a retórica contra Cuba historically mobiliza eleitores de setores específicos, especialmente em momentos de disputa eleitoral, e oferece a políticos um tema de consenso em um cenário de forte polarização.
No plano internacional, manter Cuba como alvo justifica a continuidade de políticas de pressão, como o embargo econômico, e reforça a posição dos Estados Unidos como potência dominante na América Latina, sinalizando a governos da região os limites do que seria tolerável em termos de alinhamento político.
O custo da narrativa
Enquanto o discurso da ameaça permanece, a população cubana segue lidando com as consequências de um isolamento prolongado, e a diplomacia entre os dois países avança em passos curtos, sujeita a retrocessos a cada mudança de governo em Washington.
A persistência dessa narrativa, concluem os críticos, diz menos sobre Cuba e mais sobre as dinâmicas internas da política americana. Um inimigo pequeno, mas simbólico, continua sendo útil para quem precisa de um adversário à mão — mesmo que esse adversário nunca tenha representado o perigo anunciado.
