A jornalista portuguesa Mafalda Anjos, comentarista de televisão, radialista e autora de livros como ‘Carta a um Jovem Decente’, usou sua coluna para refletir sobre as eleições de 2026 no Brasil e os efeitos do ressentimento no comportamento do eleitorado.

Lição brasileira

Anjos afirma que o Brasil lhe ofereceu, ao longo de décadas, lições políticas valiosas. Ela recorda uma frase do pai, empresário ligado à direita conservadora europeia, no início dos anos 2000: ‘O Brasil nos faz centrar. Não entendo como os brasileiros não se revoltam’.

Segundo a jornalista, compreender as dinâmicas de uma desigualdade social extrema, o abismo entre ricos e pobres, o racismo estrutural e a desumanização do outro deveria levar qualquer pessoa privilegiada com empatia à reflexão.

Ela cita experiências marcantes: a descoberta de que, em um condomínio de luxo de amigos em São Paulo, babás e empregados não podiam permanecer em áreas comuns e jardins; a frase ‘a gente não fala com serviçal’, ouvida de pessoas ricas; e a lembrança de uma infância em hotel de cinco estrelas no Rio de Janeiro, com uma favela ao lado, que ela descreve como um ‘apartheid não oficial’.

Mobilidade social

Anjos destaca que o surgimento de uma classe média apoiada por programas de transferência de renda neste século alimentou sua confiança na democracia e em uma sociedade mais igualitária. Para ela, ver filhos de trabalhadores chegarem à universidade e se tornarem médicos e advogados comprovou o poder de uma revolução pacífica pela mobilidade social — fenômeno que, segundo ela, também ocorreu em Portugal, mas de forma menos rápida e intensa que no Brasil.

Eleições e ressentimento

Sobre o pleito de 2026, a jornalista aponta fenômenos paradigmáticos: rejeição, polarização afetiva, força do voto identitário e escolhas baseadas em pertencimento ou aspiração. Ela observa ainda o poder crescente das redes sociais, dos algoritmos e das bolhas digitais na mobilização do eleitorado, em substituição à televisão como principal veículo de comunicação de massa.

Para Anjos, o caso mais notável é como o ressentimento — ‘o grande combustível político dos nossos dias’, bem explorado pelos populistas — pode levar pessoas a votar contra os próprios interesses, ‘como a barata que vota no chinelo ou no inseticida’.

Ela critica a persistência da tese de que programas como o Bolsa Família produzem ‘preguiçosos’ e de que os pobres não se esforçam para mudar de vida. E questiona como quem ascendeu socialmente pode esquecer de onde veio sua família e o que custou chegar até ali.

Ao analisar os dados de renda do eleitor, as propostas dos candidatos e o comportamento das fatias mais pobres da população e das que ganham entre dois e cinco salários mínimos, a jornalista evoca um ditado português: ‘Nunca peças a quem pediu, nunca sirvas a quem serviu’.