Lula aposta em cartas religiosas na reta final da eleição

O presidente Lula (PT) divulgará nos próximos dias cartas endereçadas a evangélicos e católicos, como parte de uma estratégia de diálogo com esses segmentos diante da proximidade do segundo turno das eleições de 2026.

No texto destinado aos evangélicos, o petista menciona a restrição às plataformas de apostas online (as bets) e a defesa do fim da escala 6×1 — regime em que o trabalhador cumpre seis dias de jornada para um de descanso — como medidas do governo que “abençoam” as famílias brasileiras. O conteúdo havia sido antecipado pelo jornal O Globo.

Pedido de discernimento

Na carta, Lula afirma ter chegado à disputa pelo quarto mandato sob proteção divina e diz que sempre atuou em defesa das famílias. “As famílias são a base do Brasil que queremos”, escreve.

O documento termina com um apelo para que o eleitorado evangélico vote com consciência livre e busque orientação divina na hora da escolha. “Sei que, nas famílias evangélicas, tudo se decide em oração. Por isso, conclamo vocês a pedirem discernimento a Deus para fazer a escolha nesta eleição. Vá às urnas com a consciência livre e com a aliança renovada com o nosso amado Brasil”, afirma o presidente.

Lula também se declara comprometido, no texto, com melhorias na saúde pública, aumento real da renda e preservação da natureza. “Precisamos avançar mais, precisamos amar mais! Até aqui, ajudei a arrumar a nossa casa, o Brasil. Mas sei que ainda há muito a ser feito. Estou escutando o clamor legítimo e urgente de vocês por mudanças, por segurança, por futuro e prosperidade”, diz o trecho.

Textos revisados pelo presidente

Segundo Edinho Silva, coordenador-geral da campanha, as cartas surgiram a partir de demandas dos próprios grupos religiosos. Versões preliminares foram apresentadas a Lula, que solicitou ajustes antes da divulgação dos textos.

“É mais uma carta para que a gente trabalhe o diálogo”, declarou Edinho, que adiantou que o presidente deve assinar documentos para outros segmentos, muitos deles por estímulo de movimentos sociais.

Pauta religiosa em destaque

Os acenos ao eleitorado cristão ocorrem na reta final da campanha, em um cenário no qual a agenda religiosa ganhou peso na disputa. No feriado de Nossa Senhora Aparecida, tanto Lula quanto o senador Flávio Bolsonaro (PL), que é evangélico, participaram de missas.

A santa passou a ocupar espaço central no debate político neste ano após a circulação de uma notícia falsa de que Flávio teria um projeto para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de padroeira do Brasil. O boato repercutiu entre parte do eleitorado católico e virou artilharia eleitoral entre os candidatos. Lula chegou a citar a fake news contra o rival em entrevista e afirmou que, enquanto for presidente, a santa seguirá como padroeira nacional.

Em julho, o PT já havia divulgado carta escrita por religiosos ligados ao partido em apoio à reeleição do presidente. O documento se abre com um versículo bíblico — “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”, de João — e evita termos como “Deus” e “Jesus”. Segundo petistas envolvidos na elaboração, o versículo representaria a palavra de Deus no texto. O aborto, tema sensível na relação entre forças de esquerda e grupos cristãos, não é mencionado diretamente.