As emendas impositivas ao Orçamento não produziram a explosão de reeleições prevista por parte dos analistas para a Câmara dos Deputados. Dos 513 deputados eleitos em 2022, 410 tentaram um novo mandato e 301 conseguiram. A taxa de sucesso ficou em 72%, praticamente o mesmo patamar de 2002 e abaixo dos 74% registrados em 2010 e 2014, segundo cálculos do CepespData, da FGV.

É o maior número absoluto de reeleitos entre 2002 e 2022, mas por margem estreita: em 2010 e 2022 foram 282. Os veteranos ocupam agora 58,6% das cadeiras da Casa.

Comparação internacional

Nos Estados Unidos, 95% dos deputados que disputaram a reeleição em 2020 venceram, de acordo com o Pew Research Center. Outra métrica, a fatia de veteranos em cada nova legislatura, aponta mediana de 44% em 68 democracias entre 2000 e 2018, segundo estudo de Martin, McClean e Strøm publicado no British Journal of Political Science. Nas cinco eleições brasileiras incluídas na pesquisa, a mediana foi de 47%, próxima à da Polônia e da França.

Sete países superam a marca de 70%: EUA (85%), Reino Unido (80%), Nova Zelândia, Austrália, Coreia do Sul, Áustria e Japão. O índice brasileiro de 58,6% em 2026, conforme dados do TSE, fica próximo ao registrado por Suécia, Noruega, Chile e Suíça no período analisado pelos autores.

Votação dos reeleitos

O reeleito típico obteve 10% mais votos do que na eleição anterior, padrão semelhante ao de 2010 e de 2022. Mais de um terço, porém, voltou à Câmara com votação menor. O ganho se concentrou no topo: cinco nomes respondem por 58% de todo o aumento de votos dos reeleitos — Nikolas Ferreira (PL-MG), Erika Hilton (PSOL-SP), André Fernandes (PL-CE), Julia Zanatta (PL-SC) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP).

Nenhum dos cinco é conhecido por obras. São parlamentares de opinião, que transformaram o mandato em palanque nacional e as redes sociais em canal com o eleitor. Nikolas Ferreira dobrou a própria votação e superou 3,1 milhões de votos, mais de um quarto dos válidos em Minas Gerais, arrastando a maior parte dos 21 eleitos do PL no estado.

Em São Paulo, o fenômeno dispensou até o mandato: Lucas Pavanato (PL) ultrapassou 3 milhões de votos sem nunca ter sido deputado federal e, portanto, sem ter indicado emendas ao Orçamento da União. Os dois maiores puxadores de votos desde 1998 são produtos da polarização e da comunicação digital, não da engrenagem orçamentária.

Já os deputados derrotados perderam, somados, 30% dos votos que possuíam, desempenho quase idêntico ao dos derrotados em 2022 que disputaram novamente em 2026. O mandato não os protegeu.

Por que as emendas não blindam

Estudo de Isabella Montini e Alison Post, da Universidade da Califórnia em Berkeley, com 60 mil emendas entre 2015 e 2023, mostra que o retorno por real investido é maior em obras de cidades pequenas, onde a autoria é clara. A expansão recente, no entanto, ocorreu no custeio: em 2014, 87% do valor das emendas ia para investimento; em 2025, 61% foi custeio, segundo dados do Siop. É recurso que mantém serviços funcionando, sem placa nem inauguração. Os retornos ainda são decrescentes: a décima obra rende menos que a primeira.

Nada disso elimina as críticas às emendas parlamentares. Mas a tese de que elas blindam mandatos segue, por enquanto, apenas como hipótese. O eleitor brasileiro continua demitindo deputados no mesmo ritmo de 20 anos atrás.