Um planeta em processo de nascimento foi registrado enquanto interage com o material que cerca sua estrela. Com o auxílio do radiotelescópio ALMA, instalado no Chile, astrônomos identificaram movimentos característicos no gás ao redor de WISPIT 2b, gigante gasoso que ainda está se formando. O achado traz evidências inéditas para testar modelos que, até então, dependiam sobretudo de simulações.
Sistema jovem a 430 anos-luz
Distante cerca de 430 anos-luz da Terra, o sistema WISPIT 2 tem aproximadamente cinco milhões de anos. Seu disco de gás e poeira contém pelo menos dois planetas em formação. O principal deles é WISPIT 2b, gigante com cerca de cinco vezes a massa de Júpiter, já identificado em observações feitas com telescópios terrestres.
Em setembro de 2026, pesquisadores do Instituto Max Planck de Astronomia anunciaram uma nova fase do trabalho. Pela primeira vez, foi possível vincular diretamente um planeta fotografado a uma perturbação específica na velocidade do gás ao redor. A observação reúne o planeta, seu disco de origem e a interação gravitacional entre os dois, permitindo comparar previsões teóricas com medições reais.
O que as imagens mostraram
O ALMA detectou uma estrutura peculiar no gás próximo a WISPIT 2b. Enquanto o disco exibe movimentos majoritariamente orbitais, a região vizinha ao planeta apresenta desvios organizados: parte do material se desloca em direção à Terra, e outra parte segue no sentido oposto, criando uma assinatura compatível com perturbações gravitacionais causadas por planetas.
Esses desvios já surgiam em simulações de interação entre planetas e discos protoplanetários. A novidade está em encontrá-los exatamente onde há um planeta confirmado. As observações também apontaram diferenças na distribuição de material entre as órbitas dos dois gigantes conhecidos do sistema.
Como o planeta cresce
Segundo os modelos de formação por acreção de núcleo, partículas de poeira se agregam em estruturas maiores. Colisões e processos gravitacionais podem gerar planetesimais e, depois, núcleos massivos o bastante para atrair grandes volumes de gás — mecanismo que ajuda a explicar gigantes como Júpiter e Saturno.
Ao crescer, o planeta altera gravitacionalmente seu entorno, produz ondas espirais, modifica velocidades orbitais e pode abrir lacunas no disco. No caso de WISPIT 2b, observações anteriores de emissão de hidrogênio já indicavam acreção ativa. Os novos mapas mostram a interação do gás com o planeta, mas ainda não permitem precisar quanto material chega à sua atmosfera.
Evidências e próximos passos
O estudo foi liderado por Myriam Benisty, do Instituto Max Planck de Astronomia, com participação de Stefano Facchini, da Universidade de Milão, e de colaboradores internacionais. Publicado em 24 de setembro de 2026 no The Astrophysical Journal Letters, o trabalho analisou imagens de alta resolução do ALMA obtidas em diferentes períodos.
Os pesquisadores examinaram emissões de monóxido de carbono para reconstruir a distribuição e os movimentos do gás. Encontraram uma assinatura cinemática junto ao planeta, compatível com ondas espirais previstas pela teoria. Aquecimento localizado e material de um possível disco circumplanetário, porém, também podem contribuir para o sinal, e separar esses componentes exigirá novas observações.
Antes dessa descoberta, o sistema PDS 70 já permitia observar protoplanetas em crescimento, mas seus planetas haviam removido boa parte do gás das regiões vizinhas, o que dificultava análises detalhadas. WISPIT 2b apresenta outra configuração, com gás detectável em torno de sua posição. Outro diferencial é a órbita distante: o gigante está cerca de 57 vezes mais longe das estrelas centrais do que a Terra está do Sol, funcionando como laboratório para estudar a formação de planetas massivos nas bordas dos discos.
Para os cientistas, a identificação simultânea do planeta e de sua assinatura cinemática oferece um teste observacional valioso para as simulações computacionais. Até pouco tempo atrás, estruturas espirais em discos podiam ser atribuídas tanto a planetas invisíveis quanto a instabilidades do próprio material. Agora existe um caso confirmado para comparação. Observações futuras, com maior resolução espectral, deverão distinguir ondas gravitacionais, aquecimento e acreção circumplanetária — com o Extremely Large Telescope europeu e as melhorias previstas para o ALMA ampliando essas investigações e ajudando a explicar como gigantes gasosos se formam.
