Um perfil que desafia estereótipos
Aos 27 anos, com 1,88 m e 120 kg, o professor de lutas Daniel Silva reúne características que, à primeira vista, poderiam apontá-lo como eleitor de Bolsonaro — seja pelos recortes das pesquisas, seja por estereótipos. Nascido e criado em São Luís (MA), porém, o lutador se declara esquerdista convicto e eleitor de Lula.
Daniel dá aulas de jiu-jítsu, boxe e muay thai e trabalha como motorista de aplicativo para complementar a renda. Começou na capoeira aos 7 anos, passou pelo taekwondo e chegou ao jiu-jítsu, depois ao MMA, ao muay thai e ao boxe. Faixa preta, disputa competições como peso pesado nas três modalidades que ensina.
A decisão de virar professor foi tomada há dez anos. O caminho não foi simples: chegou a pensar em desistir, cursou publicidade, abandonou o curso e retornou às aulas.
Críticas ao machismo na luta
Para o professor, o universo do jiu-jítsu é associado ao bolsonarismo por ser machista. “O bolsonarismo e o machismo são sinônimos”, afirma. Ele critica a entrada tardia de mulheres nas competições e os escândalos de assédio e estupros envolvendo professores da modalidade.
“Luto bastante contra esse tipo de pensamento e prática”, diz. Em um torneio recente, aproveitou a entrevista com os atletas vencedores para falar sobre a situação das mulheres no jiu-jítsu — mas, segundo ele, postaram os vídeos de todos os campeões, menos o dele.
Homenagem à mãe militante
No antebraço, Daniel carrega uma cruz tatuada sobre a data de nascimento da mãe, Georgina Maria Costa da Silva, pedagoga e professora apontada por ele como sua maior referência. Nos anos 1980, ela e a tia do rapaz batalharam pela abertura da primeira Delegacia da Mulher do Maranhão, depois transformada na Casa da Mulher Brasileira, espaço de atendimento a vítimas de violência doméstica.
“Minha mãe sempre foi militante. Desde cedo, tive uma criação atenta às minorias e à nossa realidade. A cruz não representa sofrimento nem dor, mas luta”, resume. Georgina morreu em 2014, vítima de infarto, quando Daniel tinha 15 anos. Ela era separada do pai do lutador, ex-professor de inglês e militante do movimento negro.
Tragédia familiar e o voto de 2018
As perdas se acumularam: a avó morreu em 2017 e, depois, o tio — tratado como um segundo pai — foi assassinado. Uma mulher marcou um encontro com ele e, durante uma caminhada na praia, dois homens o atacaram por trás, com uma paulada na cabeça e facadas no pescoço, apenas para roubar. “Sangrou até morrer”, relata Daniel.
“Em 2018 eu votei em Bolsonaro. Das quatro pessoas do meu núcleo familiar, três foram embora e a última de forma trágica”, lembra, dizendo ter agido com raiva e sob o impacto dos vídeos com o lema “bandido bom é bandido morto”. O voto, porém, veio “com pé atrás”. “Eu sabia que não tinha nada a ver comigo, com o ambiente em que fui criado. Por orgulho, muitos não voltam atrás. Eu prefiro dizer: evoluí.” Em 2022, votou em Lula.
Raízes no maior quilombo urbano do país
De formação católica, mas não praticante, Daniel acredita em Deus e já frequentou várias religiões. “Cheguei à conclusão de que Deus é Deus, todas levam ao mesmo lugar”, afirma.
Ele cita o bairro da Liberdade, em São Luís, considerado o maior quilombo urbano do Brasil, como retrato do descaso após o fim da escravidão. Segundo ele, depois da libertação dos negros escravizados em Alcântara, muitos chegaram à região, que se tornou culturalmente vibrante, mas ainda carece de saneamento básico e segurança.
Orgulhoso da criação que recebeu, “sempre com valores certos, respeito, disciplina, educação”, o lutador resume: “Quando consegui entender o que minha mãe me passou, comecei a enxergar tudo de outra forma, o porquê de tais pessoas estarem em tais situações.”
