O Supremo Tribunal Federal segue atuando no tabuleiro político mesmo quando tenta passar a imagem de distanciamento da disputa eleitoral. As decisões tomadas pela corte têm sido lidas à luz do placar da primeira etapa do pleito, o que evidencia, segundo a análise, a falta de sensibilidade dos magistrados para atuar em terrenos fora de sua competência jurisdicional.

Uma sequência de sinalizações favoráveis ao grupo bolsonarista é interpretada menos como apoio direto e mais como uma tentativa de não prejudicar ainda mais o presidente Luiz Inácio da Silva (PT), diante do desgaste já acumulado na relação entre o governo e a corte.

Do outro lado, a inclusão da revisão criminal de Jair Bolsonaro (PL) na pauta do Supremo, em momento considerado extemporâneo, alimenta a percepção de que os rumos do tribunal podem variar conforme o resultado das urnas.

Esses dois movimentos, somados, mantêm o STF vinculado a alinhamentos políticos — o que, ressalva-se, não equivale a dizer que a corte tenha abandonado suas atribuições jurídico-constitucionais. O problema está na leitura pública: se processos deveriam ser arquivados, denúncias rejeitadas ou penas abrandadas, a adoção dessas medidas justamente agora sugere que elas teriam obedecido ao clima da campanha. O exame do benefício concedido ao ex-presidente fica sujeito à mesma lógica.

Nesse ritmo, o tribunal, que já se encontrava à beira do abismo reputacional, dá mais um passo e mergulha no poço da desconfiança — justamente quando o cenário adverso recomendaria cautela na direção contrária.

O ativismo judicial, agora apresentado sob o rótulo de supostas reparações, não deixa de carregar as marcas do engajamento. Aos políticos de carreira é concedida a prerrogativa da pressa em tomar posições: dos apoios concedidos a quente depende o arranjo futuro das forças na disputa por poder e relevância. Aos juízes, cabe papel diverso — o de observadores não engajados, mantidos a distância prudente das interpretações de natureza político-eleitoral.

Nesse contexto, recolher os flaps sob a condução do presidente da corte, Edson Fachin, aparece como o melhor caminho. A pior alternativa seria retornar ao tabuleiro no qual o STF já demonstrou ser um mau jogador, incapaz de medir as consequências dos próprios atos. Resta à corte convencer-se de que não deve se aventurar por mares para os quais não está preparada nem autorizada a navegar.