Como cobrar dívidas é a pergunta que domina o debate econômico brasileiro. Negociação, refinanciamento e recuperação de crédito ocupam o centro das discussões quando o assunto é a inadimplência. Falta, no entanto, enfrentar a questão simétrica e igualmente decisiva: quando deixar de cobrar.
A tese é simples de enunciar e difícil de aplicar. Se o endividamento é tratado apenas como problema de cobrança, o devedor tende a ser visto exclusivamente como fonte de pagamento. Nessa lógica, não há espaço para perguntar até quando faz sentido perseguir um crédito, qual é o custo social dessa perseguição e em que ponto o perdão deixa de ser exceção para se tornar política necessária.
O custo de não perdoar
Dívidas antigas e de pequeno valor ilustram o dilema. Cobranças que se arrastam por anos raramente recuperam o crédito original, mas continuam produzindo efeitos: mantêm o consumidor afastado do mercado, alimentam a chamada “bola de neve” de juros e transformam uma pendência financeira em exclusão duradoura. O devedor que nunca encontra porta de saída deixa de consumir, de empreender e, em muitos casos, de honrar novas obrigações — o que termina prejudicando também os credores.
A ordem jurídica brasileira já reconhece parte do problema. A prescrição limita no tempo a exigibilidade judicial dos créditos, sinal de que o ordenamento entende que dívidas não podem ser perseguidas indefinidamente. Na prática, porém, a vida do endividado não se resolve apenas na esfera judicial: cadastros, negociações e cobranças extrajudiciais seguem lógicas próprias, e é justamente nessa fronteira que a discussão sobre o perdão permanece incompleta.
Perdão com regras, não com arbitrariedade
Defender critérios de perdão não equivale a defender o calote. Trata-se de estabelecer quando a cobrança cumpriu sua função e passa a custar mais do que recupera — para o credor, para o devedor e para a economia como um todo. Mercados de crédito maduros combinam os dois movimentos: cobram com eficiência e perdoam com regras claras, porque reconhecem que a capacidade de recomeçar é condição para que o próprio crédito volte a circular.
O Brasil discute muito como cobrar. O próximo passo do debate é definir, com transparência, quando parar de cobrar. Sem essa segunda pergunta, a política de endividamento fica pela metade — e devedores permanecem presos a pendências que o sistema, em tese, já deveria ter encerrado.
