A pergunta que fica do primeiro turno das eleições de 2026, realizado no domingo (4), é apontada como a mais importante do pleito: por que, depois de tudo o que aconteceu desde 2018, metade do eleitorado brasileiro ainda prefere o bolsonarismo? A reflexão é do professor titular da UFBA e doutor em filosofia Wilson Gomes, que observa que pandemia, conflitos institucionais, tentativa de golpe, prisão de Jair Bolsonaro e sucessivas controvérsias não foram capazes de dissolver ou reduzir substancialmente o campo.
Segundo a análise, duas hipóteses explicariam a permanência do fenômeno. A primeira é que o bolsonarismo se tornou uma força política autônoma e consistente. A segunda é que o antipetismo segue como motivador poderoso, capaz de manter reunidos grupos muito diferentes sempre que o adversário é Lula ou o PT.
Teto eleitoral preservado
O resultado do primeiro turno favorece a primeira hipótese. Flávio Bolsonaro, candidato do PL, não apenas preservou o eleitorado do pai como atingiu praticamente o mesmo teto eleitoral. Jair Bolsonaro obteve 46% dos votos válidos no primeiro turno de 2018 e 43% em 2022; Flávio chegou agora a cerca de 47%.
Para o pesquisador, é difícil tratar como contingência uma estabilidade que atravessa três eleições presidenciais, dois candidatos diferentes e oito anos de acontecimentos políticos extraordinários. O bolsonarismo, ou mais amplamente a nova direita radical, não teria sido uma aventura eleitoral passageira nem uma anomalia circunstancial aproveitada por um oportunista.
Fenômeno internacional
A análise lembra que, desde meados da década passada, a direita radical avançou e se consolidou nos Estados Unidos e em vários países europeus. Trump, Le Pen, Meloni, o AfD e Wilders atuam em contextos nacionais muito diferentes, mas expressam uma transformação comum: forças que antes ocupavam margens da competição passaram a disputar o centro do sistema. O Brasil seria uma versão especialmente forte dessa mutação internacional.
Antipetismo como aglutinador
O antipetismo, contudo, teria papel decisivo na capacidade de agregação eleitoral do movimento. A análise separa dois elementos: a identidade antipetista, de rejeição ao PT e a Lula, e a coordenação antipetista, quando eleitores de direita que prefeririam outros nomes abandonam a primeira opção ao perceber que outro candidato tem melhores condições de derrotar o PT.
O primeiro turno ofereceu evidência desse segundo mecanismo. Augusto Cury, Caiado, Renan Santos e Zema chegaram às últimas semanas reunindo parcela relevante do eleitorado de direita, mas foram comprimidos com o fechamento da disputa entre Lula e Flávio. Cury terminou perto de 3%, Renan e Caiado pouco acima de 2%, e Zema praticamente desapareceu, enquanto Flávio se aproximou da metade dos votos válidos.
Embora não seja possível afirmar que todos esses votos migraram diretamente para o candidato do PL, o padrão é compatível com uma regra estratégica: quando derrotar o PT se torna prioridade, o eleitorado de direita tende a se coordenar em torno do candidato mais competitivo.
Direita convencional desaparece
A análise aponta ainda um terceiro achado. Em países como Alemanha, França e Holanda, a direita radical continua disputando espaço com uma direita convencional relevante. No Brasil, essa vertente praticamente desapareceu da competição presidencial: desde 2018, o bolsonarismo não apenas cresceu, como ocupou quase todo o polo de oposição ao PT.
A resposta provisória à pergunta inicial, segundo o professor, é que a extrema direita segue como opção de metade do país porque já não é apenas o eleitorado de um homem. Tornou-se um campo político próprio e, diante do PT, ainda consegue absorver boa parte das direitas que poderiam existir fora de sua órbita.
