Um dia depois do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) editar a medida provisória que proibiu as bets no Brasil, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ligou para o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, para tratar do assunto.

Segundo o relato de três pessoas ligadas ao futebol e à campanha de Flávio, ouvidas sob anonimato, o senador tranquilizou o dirigente ao afirmar que, se eleito, buscará uma solução para os clubes de futebol e para as casas de apostas. Ele, porém, não se comprometeu a restabelecer a autorização para que as empresas voltem a operar.

Contexto eleitoral

A ligação ocorreu antes do primeiro turno das eleições, em um momento de crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto contra Lula. A avaliação do entorno petista era de que a medida poderia elevar a intenção de votos, diante da rejeição do eleitorado às apostas: pesquisa Datafolha de 1º de outubro mostrou que 78% das pessoas apoiavam o fim das bets, prática associada ao aumento do endividamento e ao vício em jogos.

Durante a campanha, o candidato associou Lula ao jogo do tigrinho, tipo de cassino online, e destacou ter votado contra a regulamentação do setor. Por outro lado, defendeu a diferenciação entre cassinos virtuais e apostas esportivas e criticou a proibição feita com “uma canetada”, que, segundo ele, “agrediu a segurança jurídica, agrediu os clubes, diversas empresas” do ramo.

As apostas online foram liberadas no governo Michel Temer (2016-2018) e passaram a funcionar sem regras no governo Jair Bolsonaro (2019-2022). Em 2023, o governo Lula propôs e o Congresso aprovou a regulamentação do setor, com o objetivo de impor cobrança de tributos e regras às bets.

Acenos ao futebol

Flávio Bolsonaro vem fazendo uma série de gestos de aproximação com as bets, que representam fonte relevante de receita para clubes de futebol e veículos de comunicação, por causa da publicidade. Um dia após o veto, ele publicou no X, sem caráter oficial, uma enquete indicando que flamenguistas votavam mais nele do que em Lula — no mesmo dia da ligação com Bap. Dias depois, em post no Instagram, incentivou o presidente do Santos, Marcelo Teixeira, a votar nele.

A Polícia Federal investiga se o senador é sócio indireto da casa de apostas Best Bet, em parceria com o advogado Willer Tomaz, que sozinho foi o maior apostador do Brasil em 2025, movimentando R$ 5 bilhões.

De acordo com pessoas a par das discussões, novos contatos entre a campanha bolsonarista e o Flamengo ocorreram também após o primeiro turno, no qual Flávio ficou à frente de Lula, com 47,03% dos votos, contra 45,16%.

A reportagem procurou a campanha de Flávio por e-mail em 8 de outubro e reiterou o pedido nesta terça (20) e nesta quarta (21), sem resposta. A assessoria do Flamengo não quis se pronunciar, e Bap também não respondeu às tentativas de contato desde 30 de setembro. Questionada sobre apoio à candidatura, a assessoria do clube negou: “O Flamengo não discute e não declarará apoio a nenhum dos candidatos”.

Reação dos clubes

A proibição gerou revolta entre os times, que boicotaram uma reunião com o governo federal para tratar do tema menos de uma semana depois da medida provisória. Quatro pessoas ligadas ao futebol afirmaram que, de modo geral, os dirigentes são simpáticos politicamente a Flávio Bolsonaro, e há expectativa de decisões favoráveis aos clubes caso ele seja eleito. O presidente do Flamengo, porém, tem sido o mais atuante na defesa das bets: o clube entrou como parte na ação no STF que analisa a validade da MP — processo relatado pelo ministro Luiz Fux — e estampou no espaço publicitário da camisa a frase “proibir não é proteger”, antes reservado à propaganda de apostas.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) não tomou partido em público. O presidente da entidade, Samir Xaud, porém, ajudou no boicote à reunião com o governo federal. Segundo relatos, ele conversou com presidentes de clubes e, apesar de dar liberdade para que cada um tomasse sua posição, o movimento de afastamento do encontro acabou se consolidando.