Com a chegada do último trimestre de 2026, empresários começam a revisar resultados, definir metas e planejar 2027. Focar apenas em faturamento, vendas e crescimento, porém, pode deixar de lado um fator essencial: como as decisões foram tomadas. Sem reconhecer comportamentos que geraram dificuldades, os mesmos problemas tendem a voltar no novo ciclo.
Levantamento da Global CEO Survey 2026, da PwC, mostra que executivos dedicam 47% do tempo a assuntos com horizonte inferior a um ano e apenas 16% a decisões que consideram prazos acima de cinco anos. Foram ouvidos 4.454 líderes de 95 países e territórios.
Para Thiago Shimada, estrategista de Business Performance com formação em Comunicação Social e pós-graduação em Neurociência, que atua na relação entre comportamento humano, decisão, liderança e negócios, a revisão anual deve analisar também os critérios usados nas escolhas, e não apenas os números financeiros.
“Os números mostram o que aconteceu, mas não explicam sozinhos por que determinada decisão foi tomada ou por que um problema apareceu várias vezes durante o ano. Planejar também exige revisar comportamentos, porque uma empresa pode mudar suas metas e continuar decidindo exatamente da mesma maneira”, afirma.
Por que os mesmos erros se repetem?
No cotidiano corporativo, estratégias costumam ser mantidas porque funcionaram no passado — vale para canais de vendas, contratações, projetos e processos que já não entregam o esperado. Uma explicação está nos vieses cognitivos, atalhos mentais que simplificam decisões e podem levar gestores a repetir escolhas sem avaliar as mudanças do negócio.
“O cérebro utiliza referências anteriores para tomar decisões. Quando uma solução funcionou, existe uma tendência de repeti-la. O problema é que o cliente muda, a equipe muda e a estrutura da empresa também. O que deu certo antes não necessariamente continuará sendo a melhor resposta”, explica o especialista.
Por isso, mapear situações recorrentes é etapa fundamental do planejamento. Quedas de vendas, dificuldades de contratação, atrasos e problemas de caixa que se repetem podem indicar falhas na forma de decidir, e não apenas na execução.
Cinco cuidados para o planejamento de 2027
1. Analise as decisões, não só os resultados — Além de comparar metas e números, é preciso identificar quais escolhas levaram a cada resultado. “Se a empresa olha apenas para o número final, perde uma parte importante do aprendizado. O resultado é consequência. A decisão é o ponto que precisa ser compreendido para melhorar o próximo ciclo”, afirma Shimada.
2. Identifique os problemas mais repetidos — Atrasos, perda de clientes, dificuldades de contratação e problemas de caixa não devem ser vistos como situações isoladas. “Quando a mesma dificuldade aparece repetidamente, o empresário precisa parar de tratá-la como exceção. Repetição é informação e pode revelar algo que a gestão ainda não conseguiu corrigir”, aponta.
3. Use os dados para questionar certezas — Indicadores não devem servir apenas para confirmar decisões antigas. Comparar resultados, ouvir diferentes perspectivas e testar hipóteses reduz o risco de insistir em escolhas inadequadas. “Uma pergunta importante é: qual dado mostraria que estou errado? Se o empresário não consegue responder, pode estar usando as informações apenas para confirmar aquilo em que já acredita”, explica.
4. Diferencie urgência de importância — O fim do ano concentra decisões sobre orçamento, investimentos e contratações, mas nem todas pedem resposta imediata. “Decidir rápido pode ser uma competência. Decidir com pressa é outra coisa. O empresário precisa reconhecer quais escolhas podem ser corrigidas facilmente e quais terão consequências durante meses ou anos”, ressalta.
5. Defina o que não deve seguir em 2027 — O planejamento também deve apontar práticas, processos e investimentos a serem interrompidos ou reformulados. “Nem tudo que trouxe a empresa até aqui precisa acompanhá-la no próximo ano. Se o planejamento acrescenta novas metas, mas preserva todas as antigas formas de agir, muda o calendário sem necessariamente mudar a gestão”, conclui.
