A quase vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições, no domingo (4), acendeu o alerta na Europa sobre como seria um novo governo comandado pela família Bolsonaro nas relações com o continente.

O jornal alemão Die Zeit dedicou 11 linhas ao resumo da ficha do ex-presidente Jair Bolsonaro para abrir uma reportagem publicada na segunda-feira (5) e perguntar como os brasileiros quase elegeram seu filho. O desempenho do senador, apelidado de “Bolsonaro Jr.” por um colunista do britânico The Guardian, surpreendeu boa parte da imprensa europeia, mesmo com a disputa contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já apontada como apertada na semana anterior.

Prognóstico negativo

Na leitura europeia, o cenário não é favorável. A esperada aproximação com os Estados Unidos de Donald Trump significaria o afastamento do Brasil da União Europeia. O terceiro governo Lula, embora sem o prestígio dos primeiros mandatos — sobretudo pela posição sobre a Guerra da Ucrânia —, era lembrado pela queda do desmatamento na Amazônia e pelo empenho em fechar o acordo entre a UE e o Mercosul.

Em análise de risco ambiental, o site Carbon Brief estimou que a gestão petista manteve de pé 20 mil km² de floresta em relação ao ritmo projetado caso Bolsonaro tivesse seguido no poder a partir de 2022.

Para a Fundação Plant-for-the-Planet, de Berlim, um novo governo Bolsonaro acarretaria risco maior de enfraquecer os órgãos de proteção florestal, com possível veto a novas áreas protegidas ou territórios indígenas, aumento de incentivos ao desmatamento ilegal por meio de anistias e afastamento da cooperação internacional na área.

A manutenção do TFFF (Fundo de Florestas Para Sempre), lançado pelo governo Lula antes da COP30, em Belém, mas ainda sem suporte suficiente, é apontada como preocupação especial. Descrito como negacionista como o pai, Flávio Bolsonaro elevaria, segundo especialistas, a probabilidade de savanização do bioma — um dos pontos de não retorno do clima.

Em editorial anterior à eleição, o Guardian avaliou que uma vitória do senador teria consequências planetárias: a democracia seria provavelmente a primeira vítima em nível local, e o clima, certamente outra, com efeitos para todos.

Acordo UE-Mercosul em risco

A pauta ambiental também pesa no acordo UE-Mercosul. Para avançar com o pacto, apesar da oposição de grandes produtores agrícolas como França, Irlanda e Polônia, a Comissão Europeia inseriu condicionantes que vão da proteção da floresta amazônica ao veto a pesticidas e hormônios, além de salvaguardas sociais.

Foi um desses itens que gerou o atual atrito entre Brasília e Bruxelas: a importação de carne brasileira foi suspensa pelo bloco por descumprir protocolo sobre uso excessivo de antibióticos.

Do lado europeu, é baixa a expectativa de solução para esses impasses em um eventual governo Flávio Bolsonaro. O negacionismo climático do senador traria mais obstáculos à negociação, salvo uma postura mais pragmática.

O acordo, que fez as exportações agrícolas da Argentina, sem restrição sanitária, saltarem 21% nos quatro primeiros meses de vigência, ainda precisa ser ratificado no Parlamento Europeu em 2027 — tarefa que seria praticamente impossível com um Brasil projetado como desmatador.

A falência do pacto não interessa a Bruxelas, que busca alternativas comerciais para contornar a gestão Trump, protecionista e politicamente inconstante. A UE tem celebrado diversos acordos nesse sentido, inclusive um inédito convite de membro associado ao Canadá. O retrospecto do governo do pai, listado pelo Die Zeit, também não ajuda.