Católicos e evangélicos têm transformado a corrida presidencial em um palco de disputa religiosa. O clima se acirrou após o candidato Flávio Bolsonaro (PL) afirmar que, se eleito, “decretaria o Brasil para Cristo”. A declaração, somada a provocações veladas entre os dois grupos, colocou a fé no centro de uma disputa capaz de impactar o futuro de um Estado em que crença nenhuma deveria interferir.
Durante visita ao Mercado Municipal de São Paulo, na segunda-feira (28), o candidato chegou a segurar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país.
O que significa “decretar”
Para os evangélicos, a expressão “Jesus é o Senhor do Brasil” é corrente em grandes congressos e conferências cristãos. Nas traduções da Bíblia usadas pelos protestantes, diferentes da versão católica, como a Almeida Revista e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, decretar significa determinar com autoridade, estabelecendo uma palavra de poder que move o reino espiritual.
No capítulo 18 do livro de Jeremias, Deus adverte sobre nações que podem ser arrancadas ou edificadas conforme seus decretos, com possibilidade de arrependimento diante da conversão do povo. A mesma lógica aparece em Mateus 16:19: “O que ligardes na terra será ligado nos céus”. E Salmos 33:12 afirma: “feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”. Nesse entendimento, proclamar Jesus como Senhor do Brasil seria tomar posse da felicidade prometida. Para um evangélico, portanto, a fala não soa alarmista, mas como forma de abençoar o país.
Por que católicos veem provocação
O alerta cresce entre católicos quando a busca evangélica por essa bênção é percebida como provocação. A idolatria, considerada pecado pelos dois grupos, é interpretada de maneiras distintas: para os protestantes, só Deus é Santo; para os católicos, existem santos na terra, que iluminam o caminho ao Pai.
É nesse ponto que entra Maria, vista pelos evangélicos como mulher abençoada pelo Espírito Santo e mãe de Jesus, e reverenciada pelos católicos como Santa Mãe do Senhor. Decretar Jesus, e não Maria, como padroeiro do país pode ser lido como tentativa de enfraquecer simbolicamente a influência católica sobre a nação e de reforçar a luta evangélica contra o que veem como “idolatria católica”.
Estado laico em debate
O quadro ganha contornos mais sensíveis porque a promessa partiu de um candidato à Presidência que, caso eleito, teria em mãos instrumentos para agir no mundo material. Além de afrontar a hegemonia católica na história brasileira, a medida estabeleceria a prevalência da religião do então presidente, o que, em um país laico, alarmaria inclusive os não religiosos.
Em nota, a campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que ele pretende fazer “uma oração antes de ler o termo de posse”, “entregando o Brasil a Jesus Cristo, numa ação simbólica de agradecimento e também como um pedido de proteção e benção para todos os brasileiros”. Se mantido nesses termos, o gesto estaria dentro da liberdade religiosa. Mas, em se tratando de um Estado laico, o episódio reacende o questionamento sobre a separação entre fé e poder público.
