Os percentuais de votos inválidos — soma de brancos e nulos — registrados nas Eleições 2026 chegaram ao menor patamar ao menos desde 2006 em todas as disputas, com exceção da corrida presidencial.
Queda generalizada
A eleição para o Senado, apontada como prioridade do PL, teve a menor taxa do século: 16,88%, quase dois pontos percentuais abaixo dos 18,72% de quatro anos atrás. Mesmo incluindo os candidatos sub judice, que aguardam decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre a regularidade dos registros, o índice ficaria em 17,03%. A mesma marca inédita do século foi observada na disputa pelos governos estaduais.
Para a Câmara dos Deputados, os inválidos somaram 8,59% — ou 8,89% com os anulados sub judice —, menor nível desde 2006, quando chegaram a 10,49%. Nos governos estaduais, o percentual total de invalidação foi de 10,13% (10,43% considerando os sub judice). Para deputado estadual, a taxa foi de 9,2%, também a mais baixa desde 2006.
Fatores explicativos
O movimento confirma a reversão de uma tendência de alta iniciada quatro anos antes. Especialistas atribuem a mudança de rota à força do Legislativo, por meio das emendas parlamentares, e ao acirramento da polarização política. Brancos e nulos, descartados do resultado final, podem expressar protesto, insatisfação com as opções de candidatos ou até erro na hora de usar a urna eletrônica.
A cientista política Luciana Veiga, da FGV, avalia que a prioridade dada pelo PL ao Senado pode explicar parte da queda. Segundo ela, havia um grupo de eleitores da direita mais extrema com um discurso muito articulado, defendendo dois votos para dar força a uma bancada de confronto com o STF — um rancor acumulado que iria da prisão de Jair Bolsonaro aos atos de 8 de janeiro.
O Senado virou foco do PL pelo interesse de Bolsonaro em compor uma bancada pró-impeachment de ministros do Supremo, tendo Alexandre de Moraes, relator dos processos dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e responsável pela prisão do ex-presidente, como principal alvo. A legenda elegeu 19 senadores e assegurou a maior bancada da Casa, com 28 parlamentares. O PT, que tentou acompanhar o movimento, elegeu seis e agora conta com nove representantes.
Mesmo com a queda, o Senado mantém a maior taxa de invalidação entre todos os cargos. Veiga atribui o dado histórico à distância entre a Casa e os eleitores e à alternância entre uma e duas vagas em disputa a cada eleição. “Mais da metade das pessoas não sabia que teriam dois votos”, afirmou, destacando que, dado o pouco conhecimento sobre a função do senador, a queda é significativa. Em 2018, último pleito no modelo com duas cadeiras em jogo, os inválidos somaram 26,9%.
Para a Câmara federal, Veiga combina os efeitos das emendas com o uso das redes sociais, que dão visibilidade ao trabalho dos deputados e aproximam o eleitor do cargo.
Abstenção recorde
Especialistas apontam que a queda do voto inválido pode se combinar com a alta da abstenção, que bateu recorde neste ano: 21%, mais de 33 milhões de brasileiros. Por essa análise, parte dos eleitores teria passado a optar pelo não-comparecimento em vez de votar nulo ou branco.
Estudos recentes indicam que nulos e brancos, desconsiderados em conjunto no resultado, refletem fenômenos distintos. Na época das cédulas de papel, o voto nulo era associado ao protesto — como na votação em massa no macaco Tião, do zoológico do Rio de Janeiro, em 1988. O voto branco, por sua vez, era explicado pela dificuldade de eleitores com baixo nível educacional em lidar com as cédulas.
