O Brasil vive um momento de grande facilidade para transferir dinheiro, mas isso não garante que as contas estejam quitadas em dia. Em setembro de 2026, o Pix alcançou mais de 1 bilhão de chaves cadastradas e registrou 7,1 bilhões de transações, movimentando 3,2 trilhões de reais, conforme dados do Banco Central. No mesmo período, porém, 29,6% das famílias brasileiras estavam com contas em atraso, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
O contraste entre a expansão dos meios de pagamento e a inadimplência revela um desafio para as empresas: converter a variedade de opções disponíveis em recebimentos mais previsíveis.
Diversificação de pagamentos
A variedade também se reflete nos cartões, que somaram 2,3 trilhões de reais movimentados no primeiro semestre deste ano, alta de 8% em comparação com o mesmo intervalo de 2025. Mesmo com a popularidade do Pix, instrumentos como crédito, boleto e débito automático seguem presentes no dia a dia financeiro dos consumidores.
O problema é que mais alternativas de pagamento não resolvem as dificuldades orçamentárias das famílias. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, o atraso médio nos pagamentos chegou a 65,3 dias em setembro, ainda que o percentual de lares inadimplentes tenha caído frente a agosto.
Para negócios que vivem de pagamentos recorrentes — como escolas, seguradoras, instituições financeiras e empresas do ramo imobiliário —, o cenário exige mais do que apenas disponibilizar várias formas de quitação. É preciso compreender as causas do atraso e recuperar os valores sem prejudicar o vínculo com o cliente.
Causas distintas exigem abordagens distintas
A inadimplência pode nascer de motivos variados: esquecimento do vencimento, falha na transação ou ausência de recursos. Embora o resultado para a empresa seja o mesmo — a falta do pagamento —, cada situação pede um tratamento diferente.
Um consumidor que normalmente paga em dia pode resolver a pendência com um simples lembrete. Já quem acumula parcelas vencidas pode precisar de condições alternativas de negociação. “Não basta oferecer diferentes meios de pagamento e esperar que o consumidor escolha o mais conveniente. É preciso entender o contexto de cada pessoa, identificar possíveis barreiras e encontrar a abordagem mais adequada para aquele momento”, explica Raphael Emerick, CEO da fintech Toku no Brasil, focada em gestão de recebíveis.
Para as companhias, outra dificuldade está em acompanhar modalidades variadas, prazos de vencimento e tentativas de cobrança. Sem gestão integrada, o processo pode gerar contatos repetidos, elevar custos operacionais e dificultar a previsão de entradas no caixa.
Tecnologia a favor da cobrança
Frente a esse quadro, empresas do setor de recebíveis apostam em análise de dados e inteligência artificial para tornar as cobranças mais eficientes. A tecnologia reúne informações como histórico de pagamentos, tentativas anteriores de contato e respostas dos consumidores, permitindo definir o melhor momento para cobrar, escolher o canal de comunicação e identificar casos em que a renegociação é mais eficaz.
Na prática, a estratégia troca abordagens padronizadas por comunicações moldadas ao comportamento de cada cliente, com o objetivo de elevar a recuperação dos valores e reduzir o esforço operacional. “A personalização permite sair de uma lógica de cobrança igual para todos e construir jornadas mais inteligentes. Quando a empresa entende melhor o comportamento do cliente, consegue definir não só como cobrar, mas também qual é o próximo passo mais adequado para aumentar as chances de recuperação”, afirma Emerick.
Segundo a Toku, a combinação entre múltiplos meios de pagamento e ferramentas de análise de dados pode ajudar as empresas a identificar obstáculos e prever melhor seus recebimentos. O desafio, contudo, permanece: gerir os recebíveis diante de consumidores que ainda enfrentam dificuldades para manter as contas em dia.
