A lobista Roberta Luchsinger publicou uma série de críticas na madrugada desta sexta-feira, 23, contra o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, e contra integrantes da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A revolta ocorreu depois que eles afirmaram ter entregado dados sigilosos dela ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na noite de quinta-feira, sem que ela tivesse sido consultada ou avisada.
A disponibilização das informações pela campanha de Lula aconteceu após o presidente desafiar o rival, Flávio Bolsonaro (PL), a abrir seus dados telemáticos e bancários durante o debate da Band. Lula colocou à disposição os próprios sigilos, os da primeira-dama Janja da Silva e os dos cinco filhos — entre eles Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, amigo de Luchsinger e investigado em três inquéritos da Polícia Federal por tráfico de influência junto à lobista.
“Ninguém me consultou”
Em suas publicações, a lobista classificou a atitude como criminosa. “Vi o Boulos, junto com o [senador] Camilo Santana e outras pessoas, entregando o meu sigilo, os meus dados. Para mim, isso é, no mínimo, criminoso. Eu não autorizei nada, não faço parte dessa patifaria, desse teatro”, criticou.
Ela afirmou que nenhum de seus sigilos, inclusive os que constam em inquéritos sob segredo de Justiça, deveria ter sido enviado a qualquer destino sem autorização. “Eu quero saber quem autorizou, quem deu ordem para essa gente levar documentos tão sensíveis meus para um teatro desse”, disse.
Roberta informou que se reuniria na manhã desta sexta com seus advogados para adotar as medidas cabíveis. “Os meus sigilos e o meu nome não vão ficar rolando na boca de João, Joana, Maria, Mari, de ninguém (…). Vou tomar todas as medidas cabíveis com advogado, STF, Polícia Federal, quem tiver que ser. Não vou admitir que continuem me usando para essa sujeirada”, completou.
Vídeo de Boulos no TSE
As críticas foram feitas depois que Boulos divulgou um vídeo nas redes sociais em que mostra documentos com dados sensíveis do presidente e de pessoas ligadas a ele — como Janja, os filhos e a própria Roberta — sendo entregues à Justiça Eleitoral. “Aqui no TSE, todos os documentos do presidente Lula estão protocolados: sigilo aberto. Até 23h59, vamos ver se Flávio Bolsonaro faz a mesma coisa ou se ele tem [algo] a esconder. Quem não deve não tem. Quem deve…”, anunciou o ministro.
Em seguida, o conteúdo exibe um corte em que ele e o ex-ministro e senador Camilo Santana (PT-CE) conferem a documentação antes do protocolo. Nesse momento, Boulos cita o nome da lobista ao entregar uma papelada ao colega.
Roberta também se manifestou na própria publicação de Boulos, em comentário no qual nega ter autorizado o uso de seus dados. “Não autorizei essa gente a usar nenhum documento meu, até porque está sob segredo de Justiça. Não faço parte desse teatro. Quero saber como conseguiram isso”, escreveu.
O desafio no debate da Band
A abertura dos sigilos fiscal e telemático de Lula foi proposta por ele no domingo, 18, durante o debate da Band, quando enfrentou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A condição era que o adversário fizesse o mesmo, como forma de expor ao público eventuais irregularidades e envolvimentos em casos de corrupção.
Flávio Bolsonaro só aceitou o desafio quatro dias depois, ao fazer uma série de exigências condicionantes — entre elas, que os sigilos de Roberta também fossem quebrados. Apesar de a equipe de Lula afirmar que entregou tudo, o senador não havia protocolado seus dados sensíveis na Justiça Eleitoral até o fechamento desta reportagem.
Versão das equipes
Procurada pela reportagem da revista VEJA, a equipe do ministro Boulos informou que ele “estava falando de dados públicos, como entrada e saída no Palácio do Planalto e ministérios”. Segundo a assessoria, era “óbvio” que ninguém tentou violar os sigilos de Roberta — apesar de isso não estar explicitado no vídeo.
A VEJA também procurou a equipe de campanha de Lula, mas não obteve retorno até o momento da publicação da matéria. O espaço segue aberto.