A atuação do candidato Flávio Bolsonaro no debate realizado pela Rede Bandeirantes rendeu críticas vindas de um lugar inesperado: do próprio círculo de seguidores. O comportamento do parlamentar durante o encontro televisionado incomodou até quem costuma defendê-lo.

O episódio ganha contorno mais amplo quando lido à luz da tática atribuída à extrema-direita, descrita como idêntica em praticamente todos os lugares do mundo: mentira e caos. Não se trata de comportamento isolado ou ocasional, mas de um padrão repetido em diferentes países e contextos eleitorais.

O debate como megafone

O ponto central da controvérsia, no entanto, está fora do palco: na ausência de checagem. Quando as afirmações dos candidatos não são verificadas em tempo real, o debate deixa de funcionar como instrumento de esclarecimento e se converte em um megafone. Cada declaração falsa proferida diante das câmeras ganha alcance multiplicado, replicada de imediato nas redes sociais muito antes que qualquer desmentido consiga acompanhar o ritmo da transmissão.

Nesse arranjo, o prejuízo é do eleitor, que fica sem parâmetros para separar fato de ficção. A mentira dita em um debate televisionado carrega a legitimidade simbólica do formato, e a correção posterior raramente alcança o mesmo público atingido pela versão distorcida. O ganho, portanto, fica com quem mente.

Mentira e caos como método

Segundo a leitura consolidada sobre o fenômeno, a combinação de mentira e caos cumpre funções precisas. A mentira desorienta e obriga os adversários a gastar energia corrigindo distorções em vez de apresentar propostas. O caos, por sua vez, desgasta a própria ideia de debate: transformado em gritaria, o confronto deixa de permitir a comparação entre projetos. O resultado é um ambiente em que fatos objetivos perdem valor.

Foi nesse contexto que o desempenho de Flávio Bolsonaro chamou atenção. Mais do que qualquer declaração isolada, foi o comportamento do candidato que provocou reação negativa, inclusive entre integrantes de sua própria base de apoio.

Desconforto nas próprias fileiras

O incômodo dos apoiadores é um dado politicamente relevante. Quando o estilo de disputa passa a desagradar não apenas os adversários, mas também a própria base de sustentação, o custo da estratégia começa a aparecer. A reação vinda de dentro sugere que a fórmula da mentira e do caos, além de eticamente questionável, pode se mostrar contraproducente até para quem a emprega.

O debate da Rede Bandeirantes deixa, assim, uma constatação que independe do resultado das urnas: sem checagem em tempo real, o formato perde sua função essencial de informar e passa a servir, sobretudo, a quem tem na desinformação a principal estratégia de campanha. Enquanto a verificação de fatos não ocupar lugar central nos encontros televisionados, o megafone permanecerá à disposição de quem decidir usá-lo.