A poucos dias do segundo turno das eleições, a estagiária de psicologia Larissa Santos, 29, praticamente não conseguiu dormir. “Fui dormir às 2h30. Meu marido disse que eu ia surtar”, relata. A razão do desespero era imaginar as consequências de uma vitória do candidato do campo político contrário ao seu na corrida presidencial.

“Eu estou mais ansiosa, minha produtividade no trabalho caiu drasticamente e todo esse contexto tem afetado minhas relações pessoais”, afirma.

O confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) está no centro das apreensões de boa parte dos eleitores. Depois do primeiro turno, Flávio apareceu na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula — uma diferença de apenas 1,87 ponto percentual.

A decisão será definida neste domingo (25), quando os brasileiros irão às urnas para escolher o presidente da República pelos próximos quatro anos. Em seis estados —Acre, Amazonas, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins— e no Distrito Federal, os eleitores também definirão seus governadores.

Nas redes sociais, a discussão sobre propostas e programas de governo se mistura a cenários catastróficos, agressões a adversários e mensagens que retratam a vitória de um candidato como uma ameaça à rotina de cada um. O fenômeno ganhou até apelido entre internautas: psicose política — expressão que não integra o vocabulário clínico.

Sinais de alerta

Segundo especialistas, a inquietação com o resultado eleitoral, isoladamente, não configura um problema de saúde mental. A preocupação surge quando o tema passa a dominar o pensamento, gera sofrimento intenso e prolongado e compromete as atividades do dia a dia.

“Na psicologia, chamamos de ruminação mental. O indivíduo permanece mentalmente ocupado com o mesmo assunto, mesmo quando gostaria de se concentrar em outras atividades”, explica o psiquiatra Arthur Danila, coordenador do programa de mudança de hábito e estilo de vida do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).

Os avisos de alerta podem se manifestar em várias áreas: dificuldade para dormir, despertares na madrugada para checar notícias, irritabilidade, tensão muscular, dores de cabeça, desconfortos no estômago, palpitações, cansaço e mudanças no apetite.

“Um sinal de alerta é quando a pessoa já não consegue escolher quando se envolver com a política e quando se desligar dela. O assunto passa a dominar seus pensamentos, suas emoções e seu comportamento, mesmo nos momentos destinados ao trabalho, à convivência e ao descanso”, diz Danila.

Esses sintomas não são exclusivos da ansiedade eleitoral e, sozinhos, não permitem concluir que alguém tenha um transtorno mental. Além de intensidade, duração e impacto, é preciso considerar fatores pessoais, familiares, profissionais e sociais, além de quadros psicológicos pré-existentes.

“Se houver prejuízo importante no cotidiano ou agravamento de uma condição psiquiátrica, é recomendável procurar avaliação profissional”, afirma Danila. Segundo ele, a prescrição de medicamentos depende de uma análise clínica individualizada.

Como funciona o tratamento

O cuidado começa com uma avaliação, em que o profissional examina os sintomas, o histórico de saúde mental e as estratégias que o paciente usa para enfrentar o estresse.

“O objetivo do tratamento não é convencer o paciente a pensar de maneira diferente sobre política, muito menos minimizar preocupações legítimas, nem eliminar toda a emoção desagradável”, afirma Danila.

“Nosso trabalho é ajudá-lo a desenvolver maneiras mais saudáveis e funcionais de lidar com situações que provocam sofrimento, como o desenvolvimento da tolerância à incerteza, além de evitar que esse sofrimento se torne incapacitante”, conclui o psiquiatra.