Quem acompanhou o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) no debate da Band, na noite de domingo (18), viu um retrato bem diferente do candidato que passou mal ao vivo durante a disputa municipal no Rio de Janeiro, em 2016, quando precisou ser socorrido por adversários. Enfrentando o presidente Lula (PT) no segundo turno da eleição presidencial, o senador demonstrou preparo: repetiu frases prontas, entregou cortes para as redes sociais, esquivou-se de perguntas incômodas e adotou tom provocativo e debochado contra o petista.

Lula, por sua vez, cedeu à pressão do adversário. Irritou-se e exaltou-se em diversos momentos, com dificuldade para controlar o ritmo do confronto diante da estratégia do filho de Jair Bolsonaro (PL).

Influências por trás da atuação

A postura do senador indicou a inspiração de três nomes: o influenciador Pablo Marçal (PRTB), o presidente americano Donald Trump e o próprio pai. Dias antes do embate, Marçal — que se aproxima de Flávio desde o início do ano e colabora com a estrutura do Ministério da Prosperidade, anunciado pelo candidato — declarou ao jornalista Paulo Cappelli que haveria um “elementozinho surpresa” no encontro da Band e sugeriu participar do treinamento do senador.

Segundo um integrante da campanha de Flávio, a preparação aconteceu em Brasília e em São Paulo. Outro integrante afirmou que o trabalho envolveu apenas a equipe, mas que o senador pode ter recebido conselhos de Marçal. “Era meu sonho estar debatendo com Lula, só que agora vai ser o pesadelo do Lula debater com o Flávio, porque ele está sendo treinado por alguém que manja de… Espera que você vai ver”, disse o influenciador ao Correio da Manhã. Questionado pela Folha nesta segunda (19) sobre qual orientação deu ao candidato, Marçal respondeu por mensagem: “Pra ele desfrutar do debate. Não cair em provocação e responder rápido”.

O influenciador chegou ao estúdio como convidado do senador, numa van ao lado do ex-juiz Sergio Moro (PL), do ex-procurador Deltan Dallagnol (Novo-PR) e do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Durante a entrevista de Flávio aos jornalistas da Band, Marçal apareceu perto do marqueteiro Duda Lima — com quem tem histórico de atrito: em 2024, um assessor do influenciador, o videomaker Nahuel Medina, acertou um soco em Duda, então responsável pela campanha do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que deixou um debate no podcast Flow com o rosto sangrando.

Orientações na plateia e tática comum

Antes do encontro, Marçal declarou que Lula era a única pessoa no local já condenada por corrupção e lavagem de dinheiro — frase repetida por Flávio ao longo do debate. O influenciador ainda foi gravado na plateia dando instruções ao candidato, a quem prometeu ser um “escudo”, e produz uma série de conteúdos em seu apoio. O PT protocolou no TSE uma ação de investigação judicial eleitoral pedindo a cassação da chapa, por suposto uso irregular das redes de Marçal para difundir propaganda eleitoral e informações falsas.

Marçal, que fez sua estreia política na disputa pela Prefeitura de São Paulo, ficou marcado por espalhar mentiras contra Guilherme Boulos (PSOL) e por episódios históricos em debates, como a “cadeirada” do apresentador José Luiz Datena e a provocação com uma carteira de trabalho empunhada contra o adversário. Esse DNA provocativo reapareceu em Flávio, ainda que em escala menor: os dois recorreram ao “whataboutism”, tática em que, diante de perguntas difíceis ou críticas, respondem com contra-acusações e mudam de assunto.