Durante uma visita de delegações da França e da Alemanha a Brasília neste mês, autoridades da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) apontaram supostas tentativas de interferência dos Estados Unidos e da Rússia nas eleições brasileiras. A informação vem de fontes e documentos consultados pela agência de notícias Reuters.
Segundo um relatório das reuniões elaborado por um dos participantes, membros da agência teriam afirmado que a intervenção americana iria “da instrumentalização do sistema jurídico à interferência admitida abertamente”. Sobre a suposta ingerência russa, não foram apresentados detalhes.
A visita, que permanecia desconhecida até então, evidencia a preocupação crescente nos dois lados do Atlântico com os esforços do presidente dos EUA, Donald Trump, para apoiar candidatos alinhados ao movimento Maga. Indica ainda que eventuais alvos de Washington começam a trocar informações.
Contexto eleitoral
O primeiro turno das eleições ocorre no domingo (4). As pesquisas mais recentes apontam uma disputa apertada entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), cujo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado e cumpre pena em prisão domiciliar por tramar um golpe de Estado após as eleições de 2022.
A hipótese de uma ação dos EUA em favor de Flávio Bolsonaro tem pairado sobre o pleito, e Lula afirmou ter advertido Trump a não se intrometer.
Procurados pela Reuters, o Departamento de Estado americano, a Abin e a embaixada da Rússia no Brasil não responderam. O órgão americano negou antes tentar interferir no pleito brasileiro, e Moscou já negou ingerir em eleições de outros países.
Apoio de Trump a candidatos de direita
O endosso explícito do governo Trump a candidatos de direita ao redor do mundo rompe com políticas tradicionais dos EUA e cria um dilema para governos em exercício: se esse apoio configura ou não interferência estrangeira. Nos últimos meses, Washington declarou apoio aberto a candidatos ideologicamente alinhados na Europa e na América Latina.
Entre os exemplos estão um pacote de socorro que pode chegar a US$ 40 bilhões (cerca de R$ 208,8 bilhões) para fortalecer o presidente argentino, Javier Milei, antes das eleições de meio de mandato, e a viagem do vice-presidente americano, J.D. Vance, à Hungria para apoiar o ex-primeiro-ministro Viktor Orbán em sua tentativa fracassada de reeleição.
Na França, onde a candidata de ultradireita Marine Le Pen lidera as pesquisas, autoridades rejeitam publicamente qualquer ingerência americana nos assuntos internos e veem o pleito brasileiro como um possível alerta antecipado para a eleição presidencial francesa de 2027.
Na Alemanha, onde o partido de extrema direita AfD (Alternativa para a Alemanha) venceu as eleições em dois estados no mês passado, autoridades criticam com regularidade o apoio do governo Trump à legenda.
Missão da União Europeia
As autoridades francesas e alemãs estiveram no Brasil de 9 a 11 de setembro, como parte de uma delegação da União Europeia, para discutir a implementação da Lei de Serviços Digitais do bloco, que exige que plataformas online façam mais para combater conteúdos ilegais e nocivos. Washington critica a norma por supostamente mirar as big techs americanas.
Documento consultado pela Reuters aponta que a missão também tinha por objetivo “preparar respostas coordenadas antes das eleições de 2026”.
Do lado francês, participaram integrantes da Viginum, agência de detecção de desinformação estrangeira, e da Arcom, órgão regulador de mídia e comunicações. Pela Alemanha, veio equipe da Agência Federal de Redes, que regula telecomunicações, energia, ferrovias e serviços postais.
A Arcom confirmou a participação de um de seus representantes, assim como a Viginum. Já a Agência Federal de Redes alemã afirmou que “uma possível interferência dos EUA nas eleições alemãs não foi discutida” na reunião.
