O Brasil conta hoje com apenas dois partidos que possuem base social orgânica: o PT e o PL. A conclusão é do cientista político Mateus de Albuquerque, que avalia que a legenda que representa o bolsonarismo conseguiu construir esse tipo de vínculo com a sociedade, colocando-se no mesmo patamar de uma das forças mais tradicionais da política nacional.

A tese se destaca porque parte do debate público costuma associar a sigla ligada ao bolsonarismo à figura de seu principal nome, e não a uma estrutura social consolidada. Na leitura de Albuquerque, porém, o partido teria alcançado algo raro no sistema partidário brasileiro: um enraizamento que vai além do resultado de uma eleição específica.

O que significa base social orgânica

Na ciência política, a expressão “base social orgânica” é usada, de modo geral, para descrever partidos que mantêm vínculos estruturados e permanentes com segmentos organizados da sociedade — como sindicatos, movimentos sociais, igrejas, associações e comunidades — e que não dependem apenas de candidaturas individuais, do humor do eleitorado ou de recursos de campanha para se sustentar. Nesse modelo, a relação entre partido e base é recíproca: a legenda representa demandas do grupo, e o grupo sustenta a existência da legenda entre uma eleição e outra.

PT e PL no mesmo grupo

Ao apontar PT e PL como os únicos partidos nessa condição, Albuquerque coloca lado a lado uma força histórica da esquerda brasileira e a legenda que hoje abriga o bolsonarismo. O ponto central da análise é a conclusão de que o partido do bolsonarismo conseguiu construir essa base orgânica — avaliação que sugere um processo de consolidação para além do fenômeno eleitoral que projetou a sigla nos últimos anos.

No caso do PT, a classificação remete à trajetória de um partido que, ao longo de décadas, se articulou com categorias organizadas do mundo do trabalho e com movimentos diversos. Já no caso do PL, a observação do cientista político indica que o bolsonarismo teria superado a condição de mero movimento de apoio a um nome e passado a dispor de sustentação social própria.

Implicações para o sistema partidário

A avaliação de Albuquerque alimenta a discussão sobre os critérios que separam partidos com raízes sociais efetivas de agremiações que vivem de ciclos eleitorais ou da projeção de líderes. Se a leitura se confirmar, o quadro indicaria que o bolsonarismo deixou de ser apenas um fenômeno de conjuntura e passou a ocupar um lugar estrutural no sistema partidário brasileiro, ao lado do PT.

O diagnóstico, portanto, sintetiza uma interpretação em curso na ciência política do país: a de que o mapa partidário se organiza, na prática, em torno de duas forças com enraizamento social, cada uma delas sustentada por bases próprias e por trajetórias distintas.