A urna eletrônica brasileira é alvo frequente de desinformação. Uma das alegações falsas que circulam nas redes sociais afirma que o Brasil seria o único país, ao lado de Venezuela e Cuba, a adotar votação eletrônica. O dado, porém, não se sustenta: dezenas de nações recorrem ou já recorreram a alguma forma de voto eletrônico, ainda que com modelos, abrangência e tecnologias bastante diferentes.
Levantamento do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea), organização intergovernamental com sede em Estocolmo, na Suécia, identificou que ao menos 34 países, entre 178 analisados, usam ou já usaram algum tipo de sistema eletrônico de votação em processos oficiais. A Venezuela está na lista, mas Cuba não aparece entre os usuários identificados pelo instituto.
São eles: Albânia, Argentina, Armênia, Austrália, Bangladesh, Bélgica, Butão, Brasil, Bulgária, Canadá, Coreia do Sul, El Salvador, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos, Estônia, Rússia, Fiji, Filipinas, França, Índia, Irã, Iraque, México, Mongólia, Nova Zelândia, Omã, Panamá, Paraguai, Peru, Quirguistão, República Democrática do Congo, República Dominicana, Suíça e Venezuela.
A lista do Idea é atualizada conforme as regras mudam em cada país, o que significa que a situação de alguns deles pode variar de uma eleição para outra. Os modelos também divergem: vão de urnas semelhantes às brasileiras a sistemas que apenas leem cédulas de papel — e até ao voto remoto pela internet.
Modelos variam de país para país
Segundo o levantamento, 17 dos 34 países usam urnas eletrônicas de gravação direta (DRE), nas quais o eleitor registra a escolha diretamente na máquina. O Brasil integra esse grupo, ao lado de Índia, Peru, México e França, entre outros. França e Estados Unidos, porém, aplicam a tecnologia apenas em parte do território.
Nos EUA, não existe um sistema nacional único: a tecnologia varia entre estados e até entre condados, e em muitas localidades o voto é dado em papel, depois lido por scanners ópticos. No Paraguai, as urnas geram um comprovante físico de cada voto, visível ao eleitor, mas o papel fica armazenado em compartimento lacrado e pode ser usado em auditorias ou recontagens. O Brasil usa urnas de gravação eletrônica sem emissão de recibo. Há ainda países com sistemas mistos, que combinam modelos conforme o tipo de votação ou a região.
Aspectos culturais também pesam. Enquanto o brasileiro digita números para escolher candidatos, na Índia as máquinas destacam os símbolos dos partidos, característica associada à diversidade linguística e aos diferentes níveis de letramento da população. De acordo com o Idea, 14 países utilizam ou já utilizaram algum tipo de votação pela internet, como Coreia do Sul, Suíça, Emirados Árabes Unidos e Austrália. A pesquisa também contabilizou sistemas de leitura automática de cédulas e modelos em que a escolha é eletrônica, mas uma cédula impressa serve como registro oficial na apuração.
O modelo brasileiro
A urna brasileira é um equipamento de gravação direta: o eleitor escolhe o candidato no teclado e o voto é registrado digitalmente. Segundo a Justiça Eleitoral, o equipamento não fica conectado à internet e não possui wi-fi ou Bluetooth.
O sistema mantém o Registro Digital do Voto (RDV), que armazena os votos de forma a preservar o anonimato dos eleitores. Esses registros podem depois ser auditados e comparados com os boletins de urna para conferir a apuração.
O Brasil se destaca pela abrangência do modelo. Em outubro de 2026, o sistema eletrônico de votação completará 30 anos e será novamente usado pelos eleitores para escolher senadores, deputados, governadores e o próximo presidente do país.
