Entre os milhões de brasileiros que vão às urnas no segundo turno, uma parcela expressiva escolherá o próximo presidente da República sem considerar virtudes, afinidades ideológicas, promessas de campanha ou propostas de governo. O voto funcionará como instrumento para barrar a vitória do adversário. Em termos simples, muitos dos que apoiaram o senador Flávio Bolsonaro no primeiro turno o fizeram para evitar a eleição de Lula — e o movimento inverso também ocorreu.

Pesquisa divulgada na quarta-feira 21 pela Quaest confirma essa tendência. A quatro dias do pleito, 52% dos eleitores afirmaram que não votariam de forma alguma no candidato do PL, enquanto 47% declararam o mesmo sobre o candidato do PT. Os dois presidenciáveis chegam à reta final empatados tecnicamente, dentro da margem de erro, e com elevados índices de rejeição. Se esse cenário se confirmar, o vencedor subirá a rampa do Palácio do Planalto em janeiro sustentado por uma leva de apoiadores circunstanciais.

Ciclo de polarização

Segundo especialistas, campanhas em que o principal ativo dos candidatos é o repúdio ao rival anunciam tensão crônica, independentemente do resultado. Essa tem sido a marca do processo político brasileiro nos últimos doze anos, com uma sequência de eleições presidenciais polarizadas. Em 2014, 3,5 milhões de votos separaram Dilma Rousseff (PT) de Aécio Neves (PSDB), dando novo mandato à petista, que seria afastada do cargo por impeachment em 2016. Em 2018, o pleito foi marcado pela prisão de Lula, pela escolha de Fernando Haddad como substituto na disputa e pelo ataque a faca contra Jair Bolsonaro. Já em 2022, Lula se apresentou como candidato de uma frente ampla em defesa da democracia e transformou o capitão reformado no primeiro presidente desde a redemocratização a perder a reeleição. No oitavo dia do novo mandato, milhares de apoiadores de Bolsonaro atacaram as sedes dos Três Poderes em Brasília, o que levou a uma condenação do ex-mandatário a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Ao iniciar o atual governo com o slogan “União e reconstrução”, Lula buscou transmitir a ideia de que trabalharia pela pacificação da sociedade — discurso que serviu, na prática, apenas para capturar o grupo que não votaria de jeito nenhum em Jair Bolsonaro. Nem a união nem a reconstrução se materializaram. Parte relevante desses apoiadores circunstanciais, ao perceber a frustração das expectativas, mudou de posição rapidamente, está na origem da alta taxa de desaprovação do governo e hoje rejeita o petista, realimentando um ciclo vicioso que só prejudica o país.

Estratégia do medo

As duas campanhas têm usado a rejeição como recurso eleitoral. Destruir a reputação do oponente pode render mais do que conquistar a confiança do eleitor. Por isso, o segundo turno tem sido pontuado por ataques, baixarias e mentiras de variadas espécies. O primeiro debate entre Lula e Flávio, na TV Bandeirantes, foi exemplar: os dois pareciam mais empenhados em mostrar quem era o pior candidato do que em discutir propostas.

O diretor-executivo da RealTime Big Data, Lucas Thut Sahd, estima que lulistas e bolsonaristas convictos somem fatias iguais de cerca de 20% do eleitorado. Os 60% restantes são pendulares e tendem a migrar para o candidato visto como “mal menor”. Na rodada mais recente da Quaest, 44% dos entrevistados disseram temer mais a volta da família Bolsonaro ao poder; para 42%, o que mais assusta é a continuidade de Lula. Na semana anterior, o instituto perguntou sobre a motivação do voto no primeiro turno: entre os que escolheram o atual presidente, 23% o fizeram para impedir o retorno do clã Bolsonaro; entre os que votaram em Flávio, 42% queriam se livrar do presidente e do PT.

Uma das táticas das campanhas para atrair eleitores fora do petismo e do bolsonarismo é a disseminação do medo. A campanha de Lula espalhou que o candidato do PL, se eleito, cortaria programas sociais como o Bolsa Família — mentira com impacto negativo junto aos setores de baixa renda. A campanha de Flávio insinuou que o petista pretende fechar igrejas — mentira com efeito negativo junto ao eleitorado religioso.

Uma vitória construída sobre a rejeição do adversário resulta em um mandato de baixo capital político. “Quem vencer terá pouca margem para pedir sacrifícios à sociedade e dependerá ainda mais do Congresso para governar”, afirma o especialista.