A Câmara dos Deputados que tomará posse em 2026 será menos fragmentada que a anterior, mas essa redução no número de partidos não garante, por si só, negociação mais fácil para o próximo presidente da República.

O resultado das eleições deste domingo (4) confirmou a tendência de concentração das forças políticas com peso real na Casa. Segundo especialistas, o fenômeno foi impulsionado pelo fim das coligações proporcionais, pela cláusula de desempenho e pelo voto útil.

Bancadas menores

O PL saiu fortalecido e elegeu 121 deputados, o equivalente a 23,6% do plenário. A federação PT/PC do B/PV vem em segundo, com 88 cadeiras, seguida por União Brasil/PP, com 87. PSD (43), Republicanos (41), MDB (36) e Podemos (27) completam as principais bancadas.

No total, 15 partidos ou federações terão representação na Câmara eleita em 2026. Em 2018, 30 siglas elegeram deputados; após fusões, incorporações e trocas de legenda, o número caiu para 23 em 2022.

Levantamento aponta ainda que a nova composição reúne 59% de deputados de direita, 24% de esquerda e 17% de centro.

Menos siglas com força real

Para o cientista político Elias Tavares, o resultado consolida um cenário em que um grupo cada vez menor de siglas terá força para decidir os rumos do país. Na avaliação dele, porém, a redução do número de partidos não facilita necessariamente a relação do presidente com o Legislativo, já que as maiores bancadas chegam à mesa de negociação com condições de fazer oposição.

“O poder começou a se concentrar novamente em menos forças políticas”, afirma Tavares, atribuindo o movimento às mudanças nas regras eleitorais, como o fim das coligações proporcionais, a cláusula de desempenho e a criação das federações partidárias.

O destaque é o PL, que avançou como “um rolo compressor” também no Senado: elegeu 19 senadores e chega a 28 parlamentares na Casa.

Doutor em ciência política e professor da Unipampa (Universidade Federal do Pampa), Luis Gustavo Teixeira afirma que a queda na fragmentação apareceu em três níveis — Câmara, Senado e Congresso —, sempre em comparação com 2018 e 2022. Ele destaca ainda o encolhimento de bancadas influentes do centrão, como União Brasil e PP, e a hegemonia do PL no Senado e na disputa por governos estaduais, com muitos eleitos no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste.

Segundo Teixeira, o resultado reflete um “movimento de cardume” de voto útil e estratégico de eleitores interessados em ampliar o capital político de seus representantes no Executivo. Ele lembra que instrumentos como a cláusula de barreira, aprovada em 2017, já produziam efeito e, somados ao voto útil, promoveram uma redução bastante significativa da fragmentação partidária.

Negociação não é automática

O cientista político Fabio Andrade, professor de Relações Internacionais da ESPM, lembra que o cálculo sobre fragmentação envolve número de partidos, capacidade de representação na Câmara e elasticidade ideológica. Para ele, ao menos desde 2006 há esforço para reduzir a dispersão partidária, movimento intensificado neste ano pela forte correlação entre os votos na Câmara e no Executivo.

Assim, o vencedor do pleito presidencial herdará um Congresso menos fragmentado — o que pode facilitar a negociação caso o eleito seja Flávio Bolsonaro (PL), desde que mantenha as emendas parlamentares, na avaliação do especialista. Do contrário, mesmo com a força do PL, a relação pode seguir difícil: “O que o Congresso tem feito, pelo menos desde 2018, é se sobrepor ao Executivo [por meio das emendas].”