O presidente Lula (PT), candidato à reeleição, perdeu votos em quase toda a distribuição de renda em relação ao primeiro turno de 2022, com impacto maior nos setores de renda média. A exceção está no topo: entre os 4% mais ricos, o petista registrou crescimento.

Já o senador Flávio Bolsonaro (PL) avançou sobre todas as faixas de renda em relação ao desempenho do pai, Jair Bolsonaro, deslocando o voto também para os mais pobres.

O pico da perda de Lula ocorreu no grupo em que o responsável pelo domicílio ganha cerca de 1,71 salário mínimo, o equivalente a R$ 2,7 mil. Na cidade de São Paulo, o petista caiu entre os setores mais pobres e subiu entre os mais ricos.

Fronteira pela renda

Mesmo com os deslocamentos, a renda delimita uma fronteira clara no eleitorado. Lula vence entre os mais pobres — quem ganha até um salário mínimo, com vantagem que se estreita até 1,6 salário mínimo, cerca de 42% da população. Flávio prevalece de 1,6 a 16,3 salários mínimos, conjunto que reúne 68% dos eleitores, da renda média baixa à mais alta.

A análise cruza a votação do primeiro turno nos 468 mil setores censitários do Brasil com a média de renda dessas áreas, medida pelo Censo Demográfico de 2022. As localidades foram divididas em 100 grupos de igual tamanho, do mais pobre (1) ao mais rico (100).

A maior vantagem de Lula está nos setores com renda média de 0,7 salário mínimo (R$ 1,1 mil), onde ele alcança 76% dos votos. Flávio atinge o ápice na faixa de 2,9 salários mínimos (R$ 4,7 mil), com 56% — patamar que já coloca a população entre os mais ricos do país.

No grupo mais rico, de 16,2 salários mínimos (cerca de R$ 26,2 mil), Flávio obtém 50% dos votos contra 39% de Lula.

Queda na classe média

Pelo recorte de faixas de consumo, Lula tem preferência na classe E, com 76% dos votos, e na D, com 68%. Flávio predomina na C (52%), na B (53%) e na A (50%). A classe C concentra 78% da população, o que esconde desigualdades internas.

Na comparação com 2022, Lula recuou 5,1 pontos percentuais na classe C, 3,9 na D e 3,2 na E, mas avançou na B (0,4 ponto) e na A (1,6 ponto). Flávio cresceu em todas as classes: 4,9 pontos na C, 4,5 na D e 4,3 na E.

A divisão segue critérios da FGV Social: a classe A reúne famílias com renda a partir de R$ 14,2 mil, e a E, até R$ 1,5 mil. Uma renda mensal de R$ 5 mil do chefe do domicílio já situa o eleitor entre os 20% mais ricos do Brasil.

Renda em alta, bem-estar em baixa

Especialistas avaliam que a melhora do emprego e da renda não se traduziu em sensação de bem-estar para o eleitor de classe média e média baixa. Juros altos, endividamento e inadimplência ajudam a explicar o descompasso.

O economista Flávio Ataliba, pós-doutor em Harvard e professor da Universidade Federal do Ceará, estuda a correlação entre renda e voto nos estados no primeiro turno. Segundo ele, o grau de associação chega a quase 70%.

“Mas quando tiramos o Nordeste da amostra e fazemos a investigação olhando só para outras regiões, a associação entre renda e voto cai muito, fica praticamente insignificante”, afirma Ataliba.