A Justiça Eleitoral, cuja razão de existir é organizar as eleições e assegurar que os candidatos disputem em pé de igualdade, vem se colocando como personagem central da própria disputa. A avaliação é da jornalista Dora Kramer, em coluna publicada em 13 de outubro, na qual ela sustenta que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a dividir com o Supremo Tribunal Federal (STF) o foco da desconfiança em relação à Justiça no contexto das eleições de 2026.

Segundo a análise, parte do problema decorre da necessidade de lidar com um cenário inédito: as ferramentas tecnológicas e o uso desleal que as campanhas fazem delas, com a disseminação de notícias falsas para desqualificar o adversário. Os atores políticos, afirma a colunista, mentem sem qualquer constrangimento, descartam a responsabilidade moral e sobrecarregam o TSE com ações judiciais, deixando aos magistrados a tarefa de administrar prejuízos que, com frequência, falam mais alto do que os desmentidos.

Árbitro não pode entrar no jogo

O ponto central do texto é que a malandragem dos políticos não dá aos juízes licença para aderir ao mesmo padrão de comportamento. Ao contrário: caberia a eles justamente se preservar como árbitros, oferecendo ao eleitorado uma distinção clara entre o que a lei permite e o que ela proíbe.

Quanto mais as campanhas descem ao vale-tudo, maior deveria ser o zelo dos magistrados para que preferências políticas não se infiltrassem nas decisões. A coluna observa que as equipes em confronto buscam, claramente, tirar proveito da rixa instalada entre as cortes.

Para a jornalista, o enfrentamento da desinformação e a preservação da civilidade e do equilíbrio de forças no pleito exigiriam unidade entre as instâncias judiciais superiores. Na prática, porém, essas cortes têm alimentado a interpretação de que estariam irremediavelmente partidarizadas.

O STF teria pautado esse comportamento ao se mostrar engajado politicamente em uma cisão que se estendeu ao TSE na reta final do primeiro turno e ao longo do segundo. O tribunal eleitoral é presidido pelo ministro Kássio Nunes Marques.

Risco de erosão da confiança

A conclusão da coluna é de que, se aos políticos não ocorre alternativa melhor do que recorrer à Justiça para disputar posições, caberia ao Judiciário resistir à instrumentalização, respeitar os limites de competência entre as cortes e impedir que se desgaste a confiança nas instituições garantidoras da legalidade.