Resultado contraria expectativa após norma eleitoral

Depois que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) estabeleceu regras que limitam a recomendação de perfis de políticos em período eleitoral, a previsão era de retração no alcance das publicações de candidatos nas redes sociais. No Instagram, porém, ocorreu o contrário: as visualizações de posts políticos cresceram ao longo da campanha de 2026. Já Facebook, TikTok, X (ex-Twitter) e YouTube registraram queda no alcance desses perfis.

Procurada, a Meta, empresa controladora da rede, não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Pela norma, as plataformas que contam com sistemas de recomendação precisam retirar dos resultados os canais e perfis comunicados à Justiça Eleitoral pelos candidatos durante o prazo oficial de campanha.

Como foi a apuração

Os números integram pesquisa do Instituto Democracia em Xeque, que constatou aplicação desigual da regra de suspensão da recomendação entre as plataformas digitais — além de indícios de descumprimento da determinação da Justiça Eleitoral pelo Instagram.

O levantamento acompanhou 2.076 perfis de políticos brasileiros, entre eles os seis principais candidatos à Presidência. O desempenho dessas contas foi cotejado com um grupo de controle, formado por perfis de pessoas que não disputaram o pleito, incluindo políticos fora da corrida eleitoral.

A análise cobriu o intervalo de 1º de fevereiro a 20 de outubro. A média de alcance entre fevereiro e junho serviu de referência para comparar o comportamento das contas no período de campanha.

O que os números mostram

No Instagram, as visualizações dos perfis de candidatos subiram 7,5% na campanha em relação às contas de controle. As interações, contudo, recuaram 11,6% no mesmo período.

As quedas foram expressivas nas demais redes. No TikTok, o alcance dos candidatos despencou 95% frente às contas de controle, com retração de 90,6% nas interações. No X, as perdas foram de 49,9% em visualizações e 38,1% em interações. No YouTube, os recuos chegaram a 44,5% e 52,5%, respectivamente. No Facebook, as visualizações caíram 19% e as interações, 40,5%.

Segundo Marcelo Alves, responsável pela pesquisa, o objetivo era entender como a interferência algorítmica prevista na resolução do TSE funcionou na prática. “Se não pode haver recomendação algorítmica de conteúdo, deveria haver sistematicamente uma queda. O que este estudo mostra é que esse efeito de fato acontece em todas as plataformas, exceto no Instagram”, afirma.

Direita, centro e esquerda

No recorte por campo político, a mediana de visualizações no Instagram caiu 11% entre candidatos de direita, subiu 2% entre os de centro e avançou 14% entre os de esquerda.

Para Alves, os dados não derrubam a tese de que a rede privilegia conteúdos de políticos de direita. Na avaliação dele, o avanço da esquerda decorre da mobilização das próprias campanhas. Os perfis de direita, aliás, mantiveram durante todo o período mediana de visualizações superior à da esquerda — a diferença encolhe, mas persiste, já que a direita dispõe na internet de um ecossistema de contas mais amplo e com mais seguidores, explica o pesquisador.

No Facebook, a mediana de visualizações por publicação recuou 71% entre candidatos de direita, 64% entre os de centro e 55% entre os de esquerda. No TikTok, os três grupos tiveram quedas abruptas e simultâneas.

Pressão sobre a Meta

Mensagens internas da empresa obtidas pela reportagem revelaram que funcionários admitiram restrições que prejudicaram contas de Lula e a recomendação algorítmica do perfil de Flávio Bolsonaro, prática vedada pelo TSE.

Em nota divulgada na última sexta-feira (16), a Meta afirmou que não intervém nas eleições brasileiras e classificou os episódios relatados em reportagens como “incidentes técnicos”.