Nas eleições de 2026 para os Legislativos federal e estaduais, um perfil se repetiu entre os campeões de votos: políticos de direita com ao menos 200 mil seguidores no Instagram. Esses nomes, que unem mandato e produção de conteúdo digital, lideraram a lista de deputados eleitos em nove estados.

Recorde também nas Assembleias

Nikolas Ferreira (PL-MG), com 22,6 milhões de seguidores, e Lucas Pavanato (PL-SP), com 5,3 milhões, tornaram-se os deputados federais mais votados da história, ambos com mais de 3 milhões de votos.

Também bateram recordes de votação para a Câmara dos Deputados em seus estados Júlia Zanatta (PL-SC), Lucas Polese (PL-ES), André Fernandes (PL-CE), Delegado Caveira (PL-PA), Jeffrey Chiquini (Novo-PR), Mauricio Marcon (PL-RS) e Lucio Mosquini (PL-RO).

No plano estadual, Eduarda Campopiano (PL-SP) foi a deputada estadual mais votada do país, com mais de 1,955 milhão de votos, aproximando-se do recorde de Janaína Paschoal, que superou 2 milhões em 2018. Ana Campagnolo (PL-SC) e Bruno Engler (PL-MG) também atingiram patamares inéditos.

Embora se apresentem como políticos, todos atuam como influenciadores. Pesquisa de campo da socióloga Rosana Pinheiro-Machado, 44, professora da Universidade de Dublin, na Irlanda, indica que perfis com mais de 200 mil seguidores estão entre os mais influentes do Instagram.

Líder de audiência nas redes

Entre o grupo com menos de 30 anos —que reúne Pavanato, Polese, Campopiano e André Fernandes—, Ferreira é o destaque. O deputado mineiro lidera a audiência no TikTok, com 9,1 milhões de seguidores, e produziu o vídeo mais visto do Brasil na história do Instagram, sobre uma suposta vigilância do Pix. O conteúdo acumulou mais de 300 milhões de visualizações.

“Possível se eleger só com rede social”

Para Pinheiro-Machado, o sucesso dos parlamentares influenciadores nas eleições era esperado. Segundo ela, o Brasil tem um dos maiores números de influenciadores autodeclarados do mundo, e esses candidatos ocupam o topo de uma pirâmide aspiracional de como as pessoas se representam e almejam ser. A pesquisadora avalia que o conjunto de plataformas da Meta, dona também do Facebook e do WhatsApp, redefiniu o jogo eleitoral a partir de uma política de visibilidade, na qual aparecer se torna mais importante do que os fatos em si.

Nesse novo tabuleiro, os parlamentares direcionam a atuação para construir reputação nas redes, e essa projeção se converte em sucesso eleitoral. “Isso ficou muito claro nesta eleição: hoje, é possível se eleger só com rede social, mesmo sem ter base política”, afirma a socióloga.

Ela cita Campopiano como exemplo da tendência. Ex-vereadora de Praia Grande, município do litoral paulista com 368 mil habitantes, a jovem construiu sua reputação e carreira política em podcasts e publicações no Instagram, onde soma mais de 2 milhões de seguidores.

Marketing digital, sonhos e frustração

De acordo com a pesquisadora, a Meta promoveu na política partidária uma transformação semelhante à que provocou no mercado de trabalho. Em sua avaliação, junto com as igrejas evangélicas, a lógica do marketing digital é a grande mola propulsora da criação de sonhos e fantasias, muitas vezes deslocados da realidade —como o padrão de ostentação exibido em perfis com milhares de seguidores. A quebra dessas expectativas, segundo ela, joga as pessoas em uma espiral de frustração.

As plataformas também estimulam a polarização afetiva, por serem espaço propício para despejar raiva e ódio. “As pessoas precisam achar um culpado, e isso se torna um processo envolvente”, afirma.

Pinheiro-Machado pondera, porém, que a busca de voto nas ruas e o trabalho de base ainda funcionam. A diferença, diz, é que a visibilidade nas redes se reproduz sozinha e atinge muito mais pessoas.