O longa-metragem “Virtuosas”, que tem Bruna Linzmayer no elenco, usa a sátira para encarar um tema que chama atenção em Santa Catarina: o movimento ultraconservador de mulheres que defendem publicamente o retorno a papéis tradicionais dentro do casamento. A produção dirige sua crítica às chamadas “esposas troféu”, fenômeno importado dos Estados Unidos, e se debruça sobre as contradições que cercam esse universo.

Fenômeno que cruzou fronteiras

O modelo das “esposas troféu” nasceu fora do Brasil. Nos Estados Unidos, a expressão passou a designar mulheres tratadas como símbolo de status — valorizadas pela aparência, pela dedicação ao lar e pela postura de subserviência em relação ao marido. Esse ideário atravessou fronteiras e encontrou espaço em Santa Catarina, onde o movimento ganhou contornos próprios e passou a ser observado com curiosidade e desconfiança.

Ao situar a crítica em Santa Catarina, o filme amarra o fenômeno global a um contexto local. O estado serve como cenário para observar como um ideário formulado em outro país é absorvido, adaptado e reproduzido por mulheres brasileiras que fazem dele bandeira de identidade.

Contradições em cena

É nesse terreno que o filme concentra sua crítica. A sátira expõe o desnível entre o discurso pregado e a prática vivida: mulheres que anunciam o recolhimento ao ambiente doméstico, mas ocupam espaços públicos; que negam a autonomia feminina, mas exercem, na prática, escolhas próprias; que pregam um modo de vida do passado valendo-se dos instrumentos do presente.

Com Bruna Linzmayer em cena, o longa transforma o humor em instrumento de análise. O riso, nesse caso, não serve apenas para entreter: funciona como forma de aproximar o público de um assunto que, tratado em tom sério, poderia parecer distante de grande parte dos espectadores.

Sátira como recurso

Ao optar pela sátira, “Virtuosas” evita o tom panfletário e prefere provocar o debate pelo caminho da comédia. O humor funciona como lente de aumento: ao exagerar traços do movimento, o filme torna visíveis mecanismos que, no cotidiano, costumam passar despercebidos.

Ao colocar em xeque o discurso ultraconservador por meio da ficção, o longa se soma às produções que usam o cinema para discutir o presente político do país. A proposta é expor contradições — e é exatamente nelas que o filme incide.