Campanha repete padrão de vaguidade fiscal

Candidatos à Presidência tendem a renegar planos de ajuste das contas públicas, com medo de perder votos, ou a prometer resultados pouco realistas, sem indicar como pretendem alcançá-los. A disputa deste ano repete esse padrão de incertezas.

Na busca por um quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinaliza, em seu programa de governo, que pretende manter as regras orçamentárias vigentes — limites anuais para a expansão dos gastos, voltados à redução gradual do déficit do Tesouro Nacional.

A postura gera inquietação entre analistas e investidores, já que a política atual não tem conseguido conter a escalada da dívida pública nem sustentar projeções de que isso possa acontecer em um horizonte visível.

Do outro lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato, promete um “tesouraço” nas despesas, mas praticamente só cita medidas bem aceitas pelo eleitorado e de efeito modesto, como a redução do número de ministérios e o combate aos supersalários.

Esse conjunto de providências não seria suficiente para o superávit anunciado, capaz de estabilizar o endividamento do governo — sobretudo se a intenção de reduzir impostos for levada adiante.

Histórico não permite prever 2027

Condutas anteriores dos dois lados tampouco permitem antecipar o que será feito a partir de 2027. No PT, houve governos que fizeram ou tentaram ajustes — o primeiro de Lula e o segundo de Dilma Rousseff, este não concluído — e outros que priorizaram a alta dos gastos, como o segundo e o terceiro mandatos de Lula e o primeiro de Dilma.

Jair Bolsonaro, pai de Flávio, iniciou o mandato com controle fiscal, ainda que distante dos saldos anunciados, e encerrou o período com forte expansão orçamentária na tentativa frustrada de reeleição.

Segundo o ministro da Fazenda, Lula quer desonerar a folha de pagamento e rever o gasto obrigatório em um eventual quarto mandato. A assessoria econômica de Flávio, por sua vez, adiantou que o plano trará um programa para endividados e uma regra fiscal.

Além dos programas oficiais, assessores econômicos dos dois candidatos mantêm encontros com setores empresariais para orientar expectativas, mas também não chegam a detalhar os planos.

Ajuste rigoroso passaria pela área social

As providências consideradas mais urgentes pelos defensores de um ajuste rigoroso atingem a área social: rever os reajustes do salário mínimo acima da inflação, que afetam benefícios previdenciários e assistenciais, e os pisos de despesas em educação e saúde.