A combinação de endividamento, juros elevados e restrição de crédito ajuda a explicar as dificuldades financeiras enfrentadas pelos produtores rurais brasileiros. A avaliação é de Antônio Luz, economista-chefe da Farsul (Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul), em entrevista na qual analisa o cenário do financiamento do campo e os impactos das mudanças climáticas sobre a agropecuária.
Luz defende que os agropecuaristas preservem mais recursos próprios para lidar com oscilações de preços e perdas de safra. Ao mesmo tempo, cobra previsibilidade no apoio ao seguro rural e critica as políticas de bancos estatais diante das novas regras de provisionamento, que, segundo ele, acabam colocando em risco o patrimônio dos produtores.
Crescimento do agro não garante segurança financeira
O economista lembra que o setor tem sustentado a economia brasileira. No resultado trimestral do IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5%, com avanço de 0,1% na indústria e de 0,2% nos serviços, enquanto a agropecuária expandiu 2,8%. Ele faz uma ressalva importante: o dado se refere à agropecuária, e não ao agronegócio inteiro. Como os setores são interligados, sua avaliação é que, sem esse crescimento no campo, indústria e serviços provavelmente teriam resultados negativos. O agro, segundo ele, está ajudando a retardar uma recessão.
Crescer, porém, não significa necessariamente ter segurança financeira. A produção pode aumentar enquanto o produtor fica mais endividado e vulnerável.
Alavancagem e juros de dois dígitos
Luz explica que o agro brasileiro cresceu muito acima da média do país nas últimas décadas. Em 2001, o país chegou pela primeira vez a 100 milhões de toneladas de grãos. Foram cerca de 12 anos para acrescentar outros 100 milhões e alcançar 200 milhões, e aproximadamente oito anos para chegar a 300 milhões — volumes cada vez maiores em intervalos cada vez menores.
Para ele, é impossível atingir esse resultado apenas com recursos próprios, já que não havia riqueza acumulada em outro setor para financiar essa expansão. O agro precisou se alavancar, ou seja, recorrer a capital de terceiros. O modelo funcionava, mas o problema apareceu quando o país passou a conviver com juros de dois dígitos por um período muito longo.
Um setor alavancado consegue suportar juros altos por algum tempo, mas não por um período tão prolongado, segundo o economista. Ele não critica o Banco Central, afirmando que teria acompanhado a grande maioria das decisões tanto na gestão de Roberto Campos Neto quanto na de Gabriel Galípolo. Para Luz, o que está errado é o que levou o país a precisar de juros tão elevados: o problema está na política econômica, e não adianta culpar o Banco Central pelo efeito e ignorar as causas.
Plano Safra: anúncio e dinheiro efetivo
Sobre o Plano Safra, Luz aponta que existe uma diferença enorme entre o valor anunciado e o dinheiro que o governo efetivamente coloca na política. Com a estabilização da economia, o financiamento rural deixou de depender principalmente do Tesouro e passou a se apoiar em recursos bancários, com direcionamento de parte dos depósitos e da poupança e taxas determinadas pelo governo, com subsídio em algumas linhas e em outras não.
Com o crescimento do agro, esses recursos deixaram de ser suficientes, e o crédito livre ganhou espaço, com banco e produtor negociando valor, taxa e condições. Quando o governo anuncia um Plano Safra de centenas de bilhões de reais, parte importante desse valor depende dos bancos e de operações negociadas no mercado, e não dos cofres públicos.
Segundo o anúncio usado como referência pelo economista, o crédito subsidiado corresponde a 18,5% do valor anunciado para a agricultura empresarial, e a execução pode ficar abaixo disso, por causa de contingenciamentos e outras limitações. Luz também destaca que crédito direcionado não é sinônimo de crédito subsidiado: no custeio, há recursos livres e controlados, e, dentro dos controlados, apenas uma parte recebe subsídio. Na agricultura empresarial, existem linhas de investimento subsidiadas, mas a maior parte do custeio não conta com esse benefício.
