Caso vença a eleição presidencial de 2026, Flávio Bolsonaro (PL) promete expandir o uso da água para irrigação de lavouras, com foco no Matopiba, região formada pelo encontro de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O polo agropecuário, porém, convive com a queda na vazão de rios e o desaparecimento de nascentes associados justamente à atividade agrícola.

No plano de governo, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro afirma que vai “ampliar significativamente a área irrigada do país, que hoje aproveita apenas uma fração do seu enorme potencial”. O texto prevê ainda a simplificação do processo de outorga — autorização para extração de água — e o desenvolvimento de polos de irrigação no Matopiba e no semiárido nordestino.

Procurada pela reportagem nos dias 20 e 21, a campanha do candidato não respondeu às solicitações de mais detalhes sobre as propostas.

Estudos apontam impacto da irrigação

Diferente do semiárido, marcado por chuvas irregulares e altas temperaturas, o cerrado abriga as nascentes de 8 das 12 bacias hidrográficas brasileiras. Pesquisas indicam, contudo, que essa abundância vem sendo afetada pela expansão da irrigação, sobretudo de soja, milho e algodão.

Um estudo publicado em 2021 na revista científica Water analisou a bacia do rio Corrente, no oeste da Bahia, coração do Matopiba. A região é uma das que mais dependem de irrigação no país, em geral por pivôs centrais — equipamentos que giram em torno de um eixo e formam os característicos círculos das plantações.

Segundo a pesquisa, as áreas irrigadas por pivô central na bacia saltaram de 240 para 43,6 mil hectares entre 1986 e 2018. No mesmo período, a vazão do rio Pratudão, um dos principais da região, caiu 38%.

Os autores observam que a captação de água ocorre nos planaltos, onde ficam as grandes lavouras de soja, enquanto a escassez aparece nos vales, rio abaixo, habitados por comunidades tradicionais — o que dificulta estabelecer a relação entre o agronegócio e o esgotamento dos recursos hídricos em um cenário de crise climática.

“Nossos resultados mostram que a atividade agrícola, mais do que a mudança climática, pode ser a principal responsável pelas tendências de redução da vazão dos cursos d’água na região oeste da Bahia”, afirmam os pesquisadores, que destacam que esses vales sofrem escassez mesmo sendo pouco desmatados.

Para Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados e um dos autores do artigo, não há margem para acelerar as autorizações de captação de água, como propõe Flávio, especialmente em áreas semiáridas ou com secas prolongadas. Segundo ele, a outorga de irrigação já é simples de obter e os critérios não são monitorados após a concessão.

Outorgas e pressão sobre os recursos

Outro levantamento, divulgado em fevereiro de 2023 no periódico IDS Bulletin, examinou as outorgas concedidas pelo governo baiano no oeste do estado entre 2007 e 2022. Foram 835 autorizações, que permitiram captar 17 bilhões de litros de água por dia nas bacias dos rios Grande, Corrente e Carinhanha — volume suficiente para abastecer, diariamente, sete vezes a população de toda a Bahia.

Dados da Embrapa até outubro de 2024 registram 332,5 mil hectares irrigados por pivô central na região, a maior concentração do país.

Em novembro do ano passado, o Ministério Público Federal ajuizou ação pedindo reforma estrutural na gestão ambiental e hídrica do extremo sudoeste baiano, para proteger o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa com Minas Gerais, “devido ao desmatamento e à utilização excessiva dos recursos hídricos disponíveis”. Segundo o órgão, a conversão do cerrado em agropecuária de larga escala reduziu em até 50% as vazões de rios e veredas do parque. A ação pede, entre outros pontos, a suspensão de novas outorgas e autorizações de desmate nos arredores da unidade de conservação.

Além da captação direta para a produção agrícola, a substituição da vegetação nativa por monoculturas prejudica a retenção de água no solo e a recarga dos aquíferos. Um terceiro estudo, publicado na Nature Communications em 2024, concluiu que mais da metade dos rios brasileiros corre risco de redução de fluxo devido à percolação de água em direção aos aquíferos subterrâneos, com base na análise de 17.972 poços em todo o território nacional.