A propaganda eleitoral do PL, partido do presidente Jair Bolsonaro, apostou em um roteiro recorrente de segundo turno: reaproveitar declarações antigas de Geraldo Alckmin, Marina Silva e Simone Tebet sobre a Lava Jato e sobre episódios de corrupção envolvendo o PT. Os três, que em outros momentos criticaram publicamente o petismo, figuram hoje entre os aliados de Lula na disputa pela Presidência.

A peça circula na reta final da campanha e busca explorar o contraste entre o discurso que esses políticos sustentavam no passado e o apoio que agora destinam ao candidato do PT. A estratégia consiste em lembrar ao eleitorado, com as próprias palavras dos aliados de Lula, as críticas que faziam à sigla em momentos de crise.

Contraste entre passado e presente

O uso de falas de terceiros é recurso tradicional das campanhas de segundo turno, quando o eleitorado dos candidatos derrotados no primeiro turno passa a ser o principal alvo da disputa. Ao resgatar declarações de nomes com peso entre os votos de centro, o PL busca desgastar a candidatura petista e sustentar que o histórico de denúncias de corrupção permanece válido como argumento eleitoral.

Alckmin, ex-governador de São Paulo, integra a chapa de Lula como candidato a vice-presidente. Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente entre 2003 e 2008, no governo petista, e depois rompeu com o partido. Tebet, então senadora pelo MDB, disputou a Presidência no primeiro turno. Os três registraram, em diferentes momentos, posicionamentos sobre a Lava Jato e sobre os escândalos de corrupção que atingiram o petismo — material agora reaproveitado pela propaganda do PL.

Disputa pela memória política

A ofensiva ilustra um dos traços marcantes da fase final da eleição: a disputa pela memória política. Enquanto o campo petista apresenta as adesões recentes como sinal da amplitude de sua frente de apoio, a propaganda do PL insiste em lembrar que nomes hoje integrados ao grupo de Lula fizeram, no passado, declarações de combate à corrupção e comentários sobre a Lava Jato.

Do ponto de vista da comunicação, o recurso cumpre dupla função: mobilizar o eleitorado antipetista já conquistado e tentar convencer parte dos votos de centro de que a aproximação entre os ex-críticos e Lula representa mudança de conveniência, e não de convicção. A eficácia do argumento, porém, depende da ressonância que essas falas encontrarem entre eleitores que acompanharam as viradas políticas dos três nomes.

Com a veiculação da peça, o PL sinaliza que o segundo turno será marcado também pelo embate sobre trajetórias individuais. A aposta é que a lembrança das declarações de Alckmin, Marina e Tebet sobre a Lava Jato e a corrupção no petismo pese mais do que o apoio que os três declaram hoje ao candidato do PT.