A disputa pela Presidência da República em 2026 revela visões antagônicas sobre o mercado de trabalho. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) defende maior flexibilização nas relações entre patrões e empregados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aposta na preservação das garantias da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e no fortalecimento dos sindicatos.
Flávio Bolsonaro constrói promessas voltadas ao setor produtivo, como a redução da burocracia e de impostos para quem contrata, além de modalidades alternativas de contratação. Por esse motivo, criticava o fim da escala 6×1, que deve ser votado nesta quarta-feira (14). Nesta terça-feira (13), contudo, o senador anunciou que votará a favor da medida, sob o argumento de que a iniciativa conta com apoio maciço dos trabalhadores. “A maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da 6×1, então vou votar a favor”, declarou.
Lula, cujo plano de governo foi elaborado com apoio de nomes de grandes sindicatos, mantém propostas de ampliação das leis trabalhistas, como o direito a dois dias de descanso semanal remunerado, regras específicas para condições de trabalho e cobertura previdenciária para quem trabalha por aplicativo.
Os planos de Flávio e Lula
No plano de governo, Flávio Bolsonaro propõe a redução gradual do custo da contratação formal para as empresas, com o objetivo de combater a informalidade. Entre as medidas está a criação de um contrato específico para jovens de 18 a 24 anos, com menor custo na folha de pagamento —sem, no entanto, especificar qual despesa seria reduzida.
O senador também defende o combate ao que chama de “república sindical”, posicionando-se contra a volta do imposto sindical e contra a atuação obrigatória de entidades classistas nas negociações de trabalho.
“O custo de um trabalhador formal chega a cerca de duas vezes o salário que ele leva para casa. Essa diferença é o que faz muita empresa não contratar, ou contratar na informalidade”, afirma o documento, que não detalha, porém, como o custo do trabalho seria reduzido.
O plano de Lula, por sua vez, reforça a manutenção do ganho real do salário mínimo, com reajustes acima da inflação, e a ampliação da fiscalização do trabalho para coibir a “pejotização espúria”. Na contramão do rival, o presidente propõe fortalecer os sindicatos, com estímulo à negociação coletiva e regulamentação dessas regras também no setor público —demanda antiga dos servidores.
Escala 6×1
A jornada 6×1 é um dos pontos de maior divergência entre os dois candidatos. Lula apresentou uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que garante dois dias de folga semanais e a redução gradual da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial. Flávio Bolsonaro anunciou voto favorável à proposta, mas aliados dele admitem ajustes futuros na medida.
A principal proposta de Flávio na área prevê o pagamento por horas trabalhadas e determina que acordos individuais entre trabalhador e patrão prevaleçam sobre as convenções coletivas assinadas por sindicatos —respeitados o limite semanal de 44 horas e o piso da categoria. A medida, de autoria do coordenador político da campanha, Rogério Marinho (PL-RN), foi apresentada como alternativa à PEC da 6×1. Segundo a campanha do PL, a regra daria mais liberdade ao trabalhador, inclusive para trabalhar menos horas por dia.
Especialistas, porém, questionam a ideia e apontam risco de precarização, jornadas exaustivas e migração forçada de modelo. “Deixar o limite diário da jornada para negociação individual é retroceder a 1802, quando a primeira lei trabalhista estabeleceu um limite diário na Inglaterra”, critica o professor de Direito do Trabalho da USP Guilherme Guimarães Feliciano.
