Notícias falsas de que Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil ganharam força depois que o candidato afirmou, no fim de agosto, que seu primeiro decreto presidencial seria tornar Jesus o Senhor do Brasil. Para o sociólogo Valdinei Ferreira, doutor pela USP e fundador do Mapa Centrante, a promessa configurou uma profanação eleitoral da fé.
Senha eleitoral
A frase “O Brasil é do Senhor Jesus”, dita por Flávio, funcionava como uma senha que os eleitores evangélicos entenderiam de imediato e à qual os demais não prestariam atenção. Na teologia desenvolvida pelo pentecostalismo e pelo neopentecostalismo, acredita-se que territórios são dominados por demônios; a declaração significaria, portanto, uma transferência “legal” dessas áreas do domínio do mal para o governo do bem.
Disputa territorial
O candidato chegou a segurar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante visita ao Mercado Municipal de São Paulo, em 28 de setembro. Placas de “tal cidade é do Senhor Jesus” nas entradas de municípios brasileiros, além do significado religioso, sinalizam presença e força eleitoral das igrejas evangélicas no território. O que Flávio indicava, na leitura do sociólogo, era a transferência dessa lógica de batalha espiritual, que opera no plano municipal, para a esfera federal.
O problema é que a expansão evangélica passa a ser representada menos como diversificação religiosa possível na democracia laica e mais como conquista de hegemonia por uma nova religião. A lógica lembra a do catolicismo romano enquanto religião oficial, entre 1500 e 1889. Com a República veio a separação entre Igreja e Estado; feriados nacionais e cidades batizadas com nomes de santos católicos são herança de uma época em que território e nacionalidade eram definidos pelo pertencimento a uma confissão religiosa.
Aliança conservadora em risco
Para o evangélico pentecostal raiz, a promessa do decreto soa como transferência do domínio territorial, espiritual e simbólico, até então católico, para as igrejas evangélicas. O candidato não prometeu retirar Nossa Senhora do posto de padroeira, mas, ao legitimar uma visão evangélica de busca de hegemonia territorial e simbólica, tornou plausíveis as suspeitas em torno de suas intenções político-religiosas.
Evangélicos bolsonaristas e setores conservadores do catolicismo operam na lógica de dominação religiosa da cultura nacional. A escolha da esquerda como inimigo comum selou um pacto tácito de não agressão entre os dois grupos — e o afago de Flávio ao triunfalismo evangélico colocou essa aliança religiosa conservadora em risco.
Liberdade religiosa seletiva
A polêmica revela ainda o anacronismo do discurso de liberdade religiosa da direita bolsonarista. As religiões de matriz africana conhecem bem a hipocrisia desse discurso: em 2019, Michelle Bolsonaro removeu do Salão Nobre do Palácio do Planalto o quadro “Orixás”, de Djanira da Motta e Silva. Nessa versão, liberdade religiosa significa o direito do vencedor de impor sua religião aos conquistados.
No esforço de reduzir danos, o candidato ergueu a imagem da padroeira em São Paulo e deve ir ao Santuário de Aparecida em 12 de outubro. Se Jair Bolsonaro, sendo católico, batizou-se no rio Jordão para ganhar pontos com o eleitorado evangélico, o filho pode assistir a uma missa na Basílica — ainda mais se valer uma eleição.
Na avaliação de Ferreira, em vez de promover a liberdade religiosa como garantia constitucional de convivência plural entre crentes e não crentes, a conduta errática de Flávio Bolsonaro reduz a fé a instrumento de cálculo eleitoral, demarcação territorial e tensão institucional — nada que não tenha sido visto no governo de seu pai. Como já profetizava Millôr Fernandes: “O Brasil tem um longo passado pela frente”.
