A coligação Brasil Pronto pra Mais, que apoia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um pedido de cassação da chapa formada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pelo deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL). A ação de investigação judicial eleitoral (Aije) foi registrada às 20h34 desta terça-feira (21.out.2026) e aponta possível abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.

O que a ação alega

Segundo a petição, a disputa não se resume ao que os candidatos dizem, mas a quem controla o que o eleitor vê. O documento aponta que sistemas de recomendação, ferramentas de inteligência artificial e mecanismos de revisão de anúncios da Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp, e do X teriam favorecido repetidamente a candidatura do PL, em prejuízo à campanha de Lula. As duas empresas aparecem como terceiras interessadas, mas não são alvo do pedido de cassação.

Entre as evidências citadas estão: uma rede de 255 perfis com conteúdo sintético, responsável por 1.204 publicações e 58,6 milhões de visualizações em um mês; o perfil de Flávio com 2,96 vezes mais interações por publicação que o de Lula na primeira semana do 2º turno, apesar de ter 17,2% menos seguidores; ferramentas de inteligência artificial da Meta e do X que aprovavam peças com “Flávio 22” e recusavam o equivalente com “Lula 13”; a desativação da conta de anúncios da campanha de Lula antes do 1º turno, além de 1.121 relatos de restrição de alcance ou banimento de perfis de apoio; e 1.613 anúncios eleitorais pagos em moeda estrangeira, com até R$ 2 milhões recebidos pela Meta e até 171,1 milhões de impressões, conforme relatório do NetLab, da UFRJ.

A petição também menciona o pagamento de R$ 600 mil da campanha de Flávio à empresa Elytron. Segundo o Intercept Brasil, a companhia de cibersegurança teria tentado vender no exterior um sistema de inteligência artificial voltado à manipulação de eleições.

Os pedidos

A coligação solicita decisões provisórias antes do 2º turno, marcado para domingo (25.out.2026), em cinco blocos: preservação dos registros da Meta e do X, com multa diária de R$ 100 mil por empresa; proibição de tratamento desigual entre os candidatos até as 23h59 de domingo, sob multa diária de R$ 1 milhão por plataforma; esclarecimentos técnicos das empresas em 48 horas; novas medidas após essas respostas; e recomposição do alcance pago que a campanha de Lula alega ter perdido em 9 e 10 de outubro, até as 23h59 de sábado (24.out.2026), com a opção de concessão de créditos de impulsionamento de R$ 7 milhões.

No mérito, o grupo pede a cassação do registro ou do diploma de Flávio e de Gaspar, além de oito anos de inelegibilidade para Flávio, Pablo Marçal e Tallis Gomes. No caso de Gaspar, a sanção dependeria de a investigação comprovar sua contribuição para os fatos. Marçal integra a equipe de campanha de Flávio desde o fim de setembro, e Tallis Gomes é ligado a um grupo empresarial parceiro da Elytron. Os dois não figuram como investigados.

Outras frentes

O governo Lula trata a atuação das big techs também como questão geopolítica. Em janeiro de 2025, o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, afirmou que mudanças nas regras de moderação da Meta afrontavam a soberania nacional. Recentemente, ele vinculou a suspeita aos Estados Unidos, afirmando que a empresa sempre beneficiou a “extrema-direita” e estaria “objetivamente interferindo nas eleições dos brasileiros”. No Planalto, avalia-se que Donald Trump teria interesse em um resultado favorável à direita brasileira, em contexto de aproximação entre o presidente norte-americano e Flávio Bolsonaro.

Além dessa ação, o TSE recebeu mais de 90 ações sobre redes sociais. A coligação já questionou a desativação da conta de anúncios do presidente, em 23 de setembro, a queda de alcance de publicações favoráveis a Lula e um possível esquema de distribuição de criptomoedas para impulsionar propaganda pró-Flávio — em 9 de outubro, o TSE suspendeu o site que oferecia os ativos. A campanha de Flávio disse desconhecer a autoria da página. O caso também foi levado à OEA, e a ONU se manifestou após o time de Lula apresentar relatório a observadores internacionais do TSE. Nesta terça-feira (20.out), o PT lançou um site para reunir queixas de “censura” e restrições de alcance nas redes.

O outro lado

O Poder360 procurou representantes da Meta, da chapa de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar e da equipe de Tallis Gomes. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.