O presidente Lula (PT) atribuiu o desempenho abaixo do esperado no primeiro turno da eleição presidencial — quando terminou atrás de Flávio Bolsonaro (PL) — a falhas na comunicação da campanha, que agora deve passar por reestruturação.
Com 99,35% das urnas apuradas, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro somava 47,16% dos votos, contra 45,01% do petista.
O petismo reconhece perdas nos grandes centros eleitorais, como Minas Gerais e São Paulo, e avalia acirrar a disputa em estados de perfil conservador. O plano prevê ainda incorporar ao comando aliados como a ex-presidente do PT Gleisi Hoffmann, derrotada na corrida pelo Senado no Paraná.
Para integrantes da campanha, é essencial ampliar a rejeição do eleitorado ao adversário. Pesquisas de opinião indicam que os dois candidatos registram índices de rejeição parecidos.
Nova fase
Lula acompanhou quase toda a apuração de um hotel em São Paulo. A previsão era voltar a Brasília na manhã desta segunda-feira (5), com reunião do comando da campanha marcada para a tarde.
Na primeira declaração após a contagem, na noite de domingo, o petista classificou o resultado como inesperado e afirmou que “começa uma nova campanha” a partir de segunda.
“O resultado muitas vezes é inesperado, a gente nunca consegue tudo aquilo que queria. Eu confesso para vocês que estava convencido que ia ganhar a eleição no primeiro turno”, declarou, mantendo em público um tom confiante. Segundo ele, o segundo turno permitirá mostrar as diferenças entre as propostas dos dois candidatos.
O ministro José Guimarães (Relações Institucionais) avaliou ser necessário reforçar a aproximação com os partidos de centro para derrotar Flávio Bolsonaro na etapa decisiva. Desde a redemocratização, em 1989, nenhum candidato que liderou o primeiro turno acabou derrotado.
Descoordenação na comunicação
A área de comunicação foi fonte de atritos ao longo da campanha. Havia três — em alguns momentos quatro — núcleos atuando sem coordenação, liderados pelos marqueteiros Sidônio Palmeira e Raul Rebelo, pelo fotógrafo Ricardo Stuckert, pela responsável pelas redes sociais do PT, Nicole Briones, e pela primeira-dama, Janja Lula da Silva.
O plano inicial do entorno presidencial previa uma campanha de segundo turno centrada na comparação entre os governos petistas e a gestão de Jair Bolsonaro (PL), pai do adversário, com foco nas regiões Sul e Sudeste.
O desenho, porém, foi traçado antes da votação deste domingo (4). Nas semanas finais, as pesquisas apontavam disputa acirrada, com crescimento de Flávio, mas Lula seguia numericamente à frente. A leitura do partido era de que o presidente fecharia a primeira etapa na liderança — ou seja, o planejamento foi feito para um cenário que não se confirmou e tende a ser revisto.
Apreensão no dia da votação
O grupo político do presidente chegou ao fim de semana animado com a grande presença de apoiadores nos últimos atos de campanha, sobretudo em Recife, Belém, Salvador e São Paulo.
No domingo, o clima mudou. Vários aliados relataram apreensão ao longo do dia de votação e chegaram a temer uma vitória de Flávio ainda no primeiro turno.
A campanha de reeleição demorou a engrenar. Houve uma falha logística: o esquema montado pela cúpula petista para distribuir material gráfico aos estados não funcionou, e apoiadores ficaram com capacidade reduzida de pedir votos por semanas. O discurso inicial, leve e voltado à promoção do próprio governo, só ganhou tom mais incisivo contra o adversário depois do crescimento de Flávio nas pesquisas.
