A perda do dedo mínimo da mão esquerda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou ao centro do debate político após o confronto transmitido pela TV Globo na sexta-feira (23.out.2026).
Durante a discussão sobre o poder de compra dos trabalhadores, o senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que Lula “dá com uma mão e tira com os 9 dedos” o salário mínimo dos brasileiros. O presidente reagiu e disse que não aceitaria ser chamado de “9 dedos” pelo adversário.
Como ocorreu o acidente
Lula perdeu o dedo em um acidente de trabalho em 1964, aos 17 anos, quando atuava como torneiro mecânico e operava uma prensa transversal. O relato foi feito em entrevista ao podcast PodPah, em 2022, durante a pré-campanha eleitoral contra Jair Bolsonaro (PL).
“Foi na Metalúrgica Independência. Essa metalúrgica fazia botão de cofre, fazia puxador de porta. Tinha uma presa que prensava as peças e quebrou o dispositivo. Eu fiz o parafuso e fui colocar. Quando eu estava colocando, o cara [que operava a prensa], acho que deu uma cochilada, e soltou a mão e a prensa fechou. Eu estava com a mão e puxei. A minha sorte é que eu abri a mão e só ficou o dedinho”, contou o presidente.
Lula avaliou que, se o acidente acontecesse hoje, talvez parte do dedo pudesse ter sido preservada. “Eu acho que se fosse hoje, o médico deixava um toquinho. Mas naquele tempo, um peão, 4h da manhã, fedendo a óleo, a mão cheia de graxa… ‘Esse peão mesmo. Para que esse toquinho assim?’. E arrancou tudo logo”, declarou.
Relato em 2002
O episódio já havia sido narrado pelo petista mais de 20 anos antes, em entrevista ao apresentador Jô Soares (1938-2022) no Programa do Jô. Em 2002, quando disputava a Presidência pela quarta vez, Lula afirmou que o acidente ocorreu por volta das 3h e que só recebeu atendimento médico às 7h.
“Pobre, trabalhando à noite, pelo sistema do INPS [Instituto Nacional de Previdência Social] não tinha muita opção. O médico podia ter aproveitado um toquinho para eu coçar o ouvido. Ele preferiu cortar tudo”, relatou na ocasião.
O presidente também confessou que sentia vergonha da ausência do dedo e tentava evitar que as pessoas percebessem. “Eu tinha preconceito. Eu tinha vergonha de usar aliança pro pessoal não ver meus dedos. Andava muito com a mão fechada”, relembrou.
Repercussão da fala de Flávio
A declaração de Flávio Bolsonaro durante o debate gerou ampla repercussão nas redes sociais. Usuários do X classificaram o senador como “capacitista” e saíram em defesa do presidente. O capacitismo é o preconceito ou a discriminação contra pessoas com deficiência, que pode se manifestar também pela subestimação de suas capacidades.
A hashtag #SomosTodos9Dedos ganhou força na plataforma após mobilização iniciada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) e chegou à quinta posição entre os assuntos mais comentados do X.
No debate, Lula rebateu o adversário: “Ele [Flávio] disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de 9 dedos, e eu quero que ele saiba de uma coisa. Se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu. Trabalhando à noite quando eu podia trabalhar. Não vou permitir que um miliciano me chame de 9 dedos”, afirmou.
O presidente completou dizendo que Flávio “nunca trabalhou na vida” e exigiu desculpas. O senador respondeu: “Não queria te ofender. Desculpas, de verdade”.