Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional da USP e integrante do Observatório Pesquisa, Ciência e Liberdade, da SBPC, defendeu em coluna publicada nesta quarta-feira (30) que se informar é um direito-dever cívico, comparável ao voto. Para o jurista, o voto que ignora ‘tudo de mais cruel e sinistro’ no país também ofende a fé cristã.

Guerra religiosa

Mendes lista, no texto, o que classifica como sementes de um perigoso conflito religioso. Cita o anúncio de Flávio Bolsonaro de que seu primeiro ato, se eleito, será decretar que ‘Brasil é do Senhor Jesus Cristo’ — movimento que, segundo o professor, instiga uma guerra dentro do próprio cristianismo.

O colunista lembra que o pastor JB Carvalho, fundador da igreja em que Flávio foi batizado em 2023, acusou a Igreja Católica de prostituição religiosa, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e assessor de Jair Bolsonaro, apresentou projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Ele menciona ainda ataques a bispos da CNBB e riscos à liberdade religiosa.

Outras críticas

A coluna aponta também o desprezo de Flávio por mulheres, com a rejeição à Lei Maria da Penha e o orgulho declarado de ‘não ser feminista’ e de lutar apenas por ‘mulheres de verdade’. Mendes cita correntes bolsonaristas contrárias ao voto feminino que, segundo ele, ganham tração em espaços extremistas do Brasil e dos Estados Unidos.

O professor relaciona ainda conexões de Flávio com o miliciano Adriano da Nóbrega, com Major Ronald e Robson Calixto, condenados no caso Marielle, e com Domingos Brazão; a construção de patrimônio ligada a transações em dinheiro vivo e à loja de chocolates; e relações com Willer Tomaz, Daniel Vorcaro, o Careca do INSS, Rodrigo Bacellar e Cláudio Castro.

STF em pauta

No campo institucional, Mendes critica o ministro André Mendonça por expor fatos graves sobre Alexandre de Moraes sem atitude equivalente para informar o eleitor sobre Ciro Nogueira, Cláudio Castro, Ibaneis Rocha, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Segundo o jurista, Mendonça também não deu transparência à própria relação com Vorcaro nem aos contratos públicos de seu instituto, do qual se retirou sem esclarecimentos. Para ele, nenhuma das ordens monocráticas do STF se compara, em radicalidade e lesividade eleitoral, às do ministro.

A coluna recorda que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes anularam provas produzidas contra Flávio no caso das ‘rachadinhas’.

Fé e responsabilidade

No argumento central do texto, Mendes reconhece que existe um direito à ignorância e liberdade para renunciar à própria liberdade — paradoxos que, segundo ele, favorecem o eleitor desinformado. Contudo, sustenta que a ética da ‘ignorância estratégica’ é incompatível com qualquer conceito não cínico de ‘pessoa de bem’ e com qualquer fé preocupada com o próximo. Para o autor, a Bíblia condena a ignorância deliberada, e há responsabilidade espiritual por essa cegueira voluntária.

O jurista conclui que o voto livre depende de boa informação e que apoiar um candidato símbolo das práticas mais cruéis da sociedade brasileira — da tortura e do crime organizado à corrupção e à exploração da fé alheia — é insustentável na fé cristã. ‘Posso ter direito à ignorância. Só não posso exercer esse direito e reivindicar amor em Cristo’, escreve, encerrando: ‘Se Deus existe, Deus está me vendo.’