A chegada das duas deputadas estaduais mais votadas de São Paulo promete alterar o clima na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo). Eduarda Campopiano (PL) e Sofia Favero (PSOL), eleitas por lados opostos da guerra cultural, são apontadas como prováveis protagonistas dos principais embates da próxima legislatura, que começa em 1º de fevereiro.

Na recepção aos novos parlamentares, realizada na última quinta-feira (15), o encontro entre as duas gerava expectativa, mas não chegou a acontecer. Favero se recuperava de uma pré-pneumonia, enquanto Campopiano chegou tarde e precisou sair cedo, por causa de compromissos na Baixada Santista, onde mora.

Alerta no governo

O desconforto maior está entre aliados do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Veteranos da Casa relatam temor de que as estreantes impulsionem debates ideológicos e ditem o ritmo dos trabalhos, em vez de abrir espaço para as propostas pragmáticas vindas do Palácio dos Bandeirantes.

A apreensão ganha peso porque Tarcísio é visto por apoiadores como nome potencial para a disputa presidencial de 2030. Um segundo mandato marcado por entregas concretas aumentaria as chances de o governador construir um futuro político independente do bolsonarismo.

As propostas feitas na campanha apontam nessa direção. Um exemplo é a criação do Deinfra, departamento pensado para repassar recursos e capacitação aos municípios para obras contra secas e enchentes — tipo de medida que costuma fortalecer laços com prefeitos, importantes cabos eleitorais em uma corrida presidencial.

Força nas urnas

No campo conservador, Campopiano, de 23 anos, obteve 1,95 milhão de votos e foi a deputada estadual mais votada do país. Ex-vereadora de Praia Grande, construiu sua votação nas redes sociais ao defender temas como a valorização da família tradicional e posições contrárias ao feminismo.

Integrante da base governista, ela afirma que não pretende criar obstáculos ao governo, mas ressalva que não abrirá mão das bandeiras caras ao seu eleitorado. “Estou alinhada com o governador Tarcísio para avançar os projetos dele, mas caso eu tenha que defender os meus posicionamentos e o posicionamento do meu eleitor, então sim, haverá embate”, disse.

Do lado progressista, Favero alcançou 407 mil votos, a terceira maior votação do estado. Ativista de direitos humanos, destacou-se pelas pautas de inclusão da população LGBTQIA+. Ela nega que fará um mandato voltado a temas de nicho e afirma que as demandas de seu eleitorado não estão separadas das necessidades da classe trabalhadora, como educação pública de qualidade, moradia digna, saúde e segurança. “Estamos prontas para o enfrentamento de ideias no plenário. Mas existe uma linha clara que separa a crítica política do crime”, diz.

Temor exagerado

Para o cientista político e professor do Insper Leandro Constantino, pautas puramente ideológicas tendem a ser estéreis para a gestão pública, mas a preocupação com a governabilidade é exagerada. Segundo ele, a Alesp ainda é composta por maioria de políticos mais voltados a acordos fisiológicos do que a questões morais.

Além disso, lembra o especialista, parlamentares de retórica inflamada costumam ser pragmáticos na hora de votar projetos estratégicos. “Quando são chamados, eles deixam questões ideológicas de lado e mergulham nas pautas caras ao comando do partido”, avalia Constantino.